Uma introdução a Kierkegaard

31/10/2009

Kierkegaard

Acreditem, prezados leitores, que, por influência de meu pai, e também por imposições acadêmicas bem posteriores, em um já longínquo Mestrado, estudei um pouquinho de Kierkegaard. Há boas traduções de sua obra em língua inglesa, publicadas pela Princeton. Em português, as coisas são mais complicadas, mas há gente que, sem dúvida, trabalha o autor com seriedade, até mesmo no Brasil.

Como, no mês passado, lidei, aqui neste site, com um heterônimo de Pessoa, lembrei-me do filósofo dinamarquês, afeito também aos heterônimos. Assim, abaixo, apresento um fragmento de um ensaio de cerca de 20 páginas que escrevi e não publiquei, pois não me rendi à lei do “publish or perish”, a qual, se me permitem a franqueza, acho um embuste. Por que escrever com pressa? Por que publicar 10 textos ruins, similares em seu objeto e com títulos “espertamente” diferentes, em vez de apenas um bom texto? Pressa, meus amigos, é coisa de jornalistas, nobres senhores que precisam estar, eles sim, atentos às maravilhas do cotidiano…

Mas voltemos ao meu pequeno ensaio: trata-se, penso eu, de uma introdução razoável ao autor dinamarquês, pois começa a abordar sua obra pelo “Diário de um sedutor”, texto cujo título já é, em si mesmo, atraente para uma juventude que tão bem vive nestes tempos de elevado êxtase estético; texto que é publicado por editoras de terceira categoria e a preço módico, ainda que, naturalmente, nada saibam de seu conteúdo subjacente.

Confesso que não tenho mais paciência para adotar o tom do sermão (como fazia quando era professor, repreendendo – com cordialidade, se é que me entendem – aqueles alunos desinteressados e não-leitores, presentes de corpo, mas não de alma, nos cursos de Letras) quando o assunto é tentar persuadir alguém à leitura de algum texto que julgo importante, ou que possa vir a ser importante como base para leituras mais profundas. Na verdade, hoje, não recomendo a leitura de Kierkegaard, mas do caderno de domingo da Zero Hora. É a mesma coisa.

 

Kierkegaard: sedutor ma non troppo

(fragmento de um ensaio não-publicado)

          A primeira preocupação deste ensaio diz respeito à delimitação de sua proposta: trata-se de estabelecer, desde o início, uma possível conexão entre a vida particular de um escritor e o seu texto. Não se ignora que tal fato é tarefa árdua, pois, com essa determinação biográfica em mente, é provável que a vocação mais “científica” da teoria literária seja afastada e que os leitores mais ortodoxos, justamente pela aversão à biografia, já aqui se retirem. Deseja-se-lhes, por educação, boa viagem. Para os que ficam, contudo, a aludida conexão será possível e pertinente porque o escritor aqui abordado não é exatamente um romancista, mas alguém que costuma freqüentar com maior propriedade, ainda que talvez sem grande envergadura, o cânone filosófico: Søren Kierkegaard. Para o filósofo dinamarquês, a incursão no literário cumpria uma função específica, isto é, não era desinteressada, não era uma finalidade sem fim, mas, ao contrário, uma necessidade que validava a configuração de um sistema (tal palavra será utilizada apesar  da aversão que Kierkegaard sentia por ela). Assim, quando escreve, sob o disfarce de um heterônimo, uma obra como o Diário de um sedutor, objeto mais específico deste ensaio, Kierkegaard o faz com uma segunda intenção — que transformaria toda sua obra estética em flagrante ironia dirigida à sociedade em que vivia e aos homens de sua época. Há, por isso, uma deliberação de cunho mais externo em sua obra do que, digamos, haveria na obra de um romancista (excluídos talvez aqueles que mais tarde se dedicariam, sob maior doutrinamento e com fé quem sabe até mais irracional, ao realismo socialista). Partindo-se do tema proposto, ainda que abdicando um pouco de sua relação com o mito de Don Juan e suas derivações, torna-se plausível começar por relacionar as condições de produção do texto do autor dinamarquês, intitulado precisamente Diário de um sedutor.

          Pode-se dizer o seguinte sobre a obra em questão: trata-se de um trabalho escrito sob  o disfarce de um heterônimo (como é sabido, o filósofo dinamarquês fez uso deste artifício em quase toda a sua obra). Esse heterônimo é  apenas um entre muitos:  O Diário de um sedutor é o último texto da primeira das duas partes de uma obra maior de nome “Enten/eller” (sem tradução para o português [em inglês: “Either/or”]). A obra é editada também por um heterônimo, Victor Eremita, autor do prefácio. Na primeira parte, quem escreve é outro heterônimo, simplesmente chamado de “A”, criador, por sua vez, de mais outro heterônimo, Johannes, autor do Diário de um sedutor. Na segunda parte, quem escreve é o Juiz Wilhelm, ou “B”. Além destes ainda há mais um heterônimo: “O pastor de Jylland”, que fecha o livro. A obra como um todo presta-se para que o pensador dinamarquês defenda a tese de que a existência se caracteriza pela escolha que o indivíduo faz entre uma atitude estética — apresentada em toda primeira parte e, especialmente, em Diário de um sedutor — e uma atitude ética — apresentada na repreensão da segunda parte  [Nota: “Em ‘Enten/eller o momento estético era um presente em luta com a ética. O momento ético era a eleição por meio da qual a gente se afasta do estético”. Kierkegaard, Søren apud REICHMANN, Ernani. Soeren Kierkegaard: textos selecionados. Curitiba: Editora Universidade Federal do Paraná. 1978. p. 39.]

         A criação dessa variada gama de heterônimos já indica o trabalho cuidadoso do filósofo em afastar de si próprio toda e qualquer criação de cunho estético. A idéia subjacente à utilização dos heterônimos é fazer com que, mais tarde, uma resposta ética pudesse ser elaborada, ou pelo próprio Kierkegaard, ou pela máscara de outro heterônimo. Procedimento complicado, a utilização da heteronímia pelo dinamarquês parece apontar para o fato de que toda análise que se faça de sua obra leve em consideração essa espécie de sistema por ele criado. Outra questão importante a ressaltar, como já se apontou, diz respeito à incipiente bibliografia brasileira do autor e sobre o autor. Na famosa coleção “Os pensadores”, por exemplo, o Diário de um sedutor é apresentado como obra independente, como se não guardasse nenhuma relação com os outros textos de Kierkegaard. Além disso, a questão da heteronímia não é sequer mencionada, o que faz da recepção do texto um equívoco regido pela descontextualização.

          Esse sistema kierkegaardiano é de fundamental importância, pois apresenta ao leitor a constituição de um mundo fechado em que as obras dialogam entre si, em que os “autores” inventados pelo próprio Kierkegaard assumem papéis irônicos (no sentido de que divergem sempre de um suposto núcleo em que estivesse centralizada a também suposta faceta única da filosofia do autor: a irracionalidade da fé). Todos esses heterônimos não seriam, assim, senão desdobramentos de uma criatividade romântica a serviço da defesa de uma tese cujo resultado não deveria ser apenas formal, mas prático, moral e, mais do que isso — no extremo — irracional e religioso.

          Retome-se agora o sistema. O que são o estético e o ético para Kierkegaard? Essa pergunta implica levar-se também em consideração o chamado terceiro estágio do sistema kierkegaardiano: o religioso.

          Segundo G. Malantschuk, a teoria dos três estágios [estádios] da existência — estético, ético e religioso —, elaborada por Kierkegaard, constrói-se através de um pressuposto: a concepção do homem como síntese de duas qualidades distintas, ou seja,  tempo e eternidade, finito e infinito, necessidade e liberdade, corpo e alma (e espírito). A predominância de um dos membros da síntese, por exemplo, do temporal, ou do mundo sensível, sobre a eternidade define o estágio estético. Quando há uma tendência ao eterno ou à aceitação do eterno, uma tentativa de união dos dois membros da síntese, há a passagem para o estágio ético. A passagem deste para o religioso, espécie de objetivo final, dá-se através de um salto qualitativo. [Nota: Cf. MALANTSCHUK, Gregor  apud  REICHMANN, op. cit.,  p. 365-366.] Tal passagem está expressa em Temor e tremor, obra na qual o mito bíblico da renúncia de Abraão ao filho Isaac (vide Gênesis, 22) — ato de fé angustiado e paradoxal do patriarca em prol da fé divina — é elevado a uma espécie de paradigma.

          A realização plena do ético (e o conseqüente salto qualitativo) seria então o objetivo principal de um autor que almejava conquistar indivíduos para o que denominava estágio religioso (isto é, a contraposição ao mundo meramente sensorial — nos termos kierkegaardianos, o mundo “estético” —,  cuja característica principal é a transitoriedade do prazer). Kierkegaard, portanto, valia-se de sua obra estética para, de certa forma, converter seus leitores. [Nota: “O autor religioso deve, portanto, em primeiro lugar, entrar em contato com os homens. Por outras palavras, deve começar por uma produção estética que lhe servirá de preço a pagar [de garantia]. (…) Deve, portanto, estar totalmente pronto para produzir o religioso, sem qualquer impaciência, mas tão depressa quanto possível, no exato momento em que conquistou os leitores, de modo que [estes] embatam com o religioso na mesma velocidade com que se abandonam do estético”. KIERKEGAARD, Søren. Ponto de vista explicativo da minha obra como escritor. Lisboa: Edições 70, s/d. p. 40.] Essa lógica, de fundo eminentemente religioso e irracional, está é claro só indiretamente presente em Diário de um sedutor, obra estética do sistema kierkegaardiano, e que, por isso, cumpria apenas o papel estratégico de atrair leitores para as malhas da fé no absurdo.


Introdução a um poema de “O guardador de rebanhos”, de Alberto Caeiro

21/09/2009

 

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Este texto é uma introdução a Alberto Caeiro e visa a oferecer subsídios a jovens alunos do Recife.  (Observação de 18/11/2009: Como se vê pelo mapa ao lado, esta análise é também lida em Portugal, Angola e Moçambique. Agradeceria se algum leitor estrangeiro, depois de lê-la, deixasse aqui um comentário dizendo o que motivou sua leitura).

 

Falemos de Caeiro em linguagem simples, como convém falar de um guardador de rebanhos. É certo que há alguma dificuldade nessa simplicidade, uma vez que o guardador de rebanhos diz não ser, propriamente, um guardador de rebanhos, mas alguém que se sente como se guardasse rebanhos. Portanto, do poeta Pessoa afasta-se Caeiro em dois graus (ou em três, como contavam os antigos, e também Platão lá no livro X da República, ao falar dos leitos produzidos pelo artista). Mas que espécie de afastamento é esse e por que ele ocorre? Não há espaço aqui para um grande estudo da gênese dos heterônimos de Pessoa, mas, hoje, tal investigação pode ser feita com tranqüilidade, até mesmo sem a necessidade de sair da frente do computador, este maldito computador, marca simbólica da onipresença da ciência em nossas vidas, e que tanto nos afasta do mundo natural, caro ao heterônimo aqui analisado. Mas já divago. Volto.

Em plano o mais simples possível, partirei de um poema apenas – poema que tenha carga suficiente para sintetizar aquilo de que nos fala Caeiro. Antes de mais, não quero deixar de trazer para este texto analítico uma lição de outro poeta, do Bandeira crítico de si mesmo: “Aproveito a ocasião para jurar que jamais fiz um poema ou verso ininteligível para me fingir de profundo sob a especiosa capa de hermetismo. Só não fui claro quando não pude.” Essa declaração serve, penso eu, tanto para iluminar o crítico de Caeiro quanto para qualificar o próprio, que escrevia de maneira clara, de forma clara, sobre conteúdos nem sempre tão claros, é verdade, ao homem comum. Acreditem: para nós, que vivemos a pós-modernidade, tempo de mau uso da linguagem por parte de homens – em geral, franceses – que se dizem filósofos apesar de amarem mesmo é o embuste e os jogos irracionais feitos com palavras ambíguas, ser claro é um presente divino. Por isso, com Caeiro, dispomos da vantagem de voltar a uma certa rigidez da linguagem, a uma linguagem que tudo diz muito naturalmente e, atentem, sob o diapasão da racionalidade. De parte do crítico literário, portanto, nada mais natural do que a ela (à linguagem de Caeiro) responder com uma tentativa de compreender a “razão do poema”, como faria, aliás, um de nossos grandes críticos, José Guilherme Merquior.

Feita essa pequeníssima introdução ou declaração de princípios, passemos, sem mais delonga, ao poema de Caeiro a ser analisado. Trata-se do poema que começa pelo verso “O mistério das coisas, onde está ele?”, geralmente marcado pelo número “XXXIX” nas edições de  O guardador de rebanhos:

 I
 1          O mistério das coisas, onde está ele?
2            Onde está ele que não aparece
3          Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
4          Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
5          E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
6            Sempre que olho para as coisas e penso no que os
                      homens pensam delas,
7          Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
 
 II
 8          Porque o único sentido oculto das coisas
9          É  elas não terem sentido oculto nenhum.
10        É mais estranho do que todas as estranhezas
11        E de que os sonhos de todos os poetas
12        E os pensamentos de todos os filósofos,
13        Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
14        E não haja nada que compreender.
 
III
 15        Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:
16        As coisas não têm significação: têm existência.
17        As coisas são o único sentido oculto das coisas.
  

Como se vê, o poema está dividido em três estrofes. A primeira contém os sete primeiros versos; a segunda vai do verso oito até o verso quatorze; a terceira contém os três últimos versos, ou seja, estende-se do verso quinze até o verso dezessete. Essa divisão, formalizada por Caeiro, será,  contudo, um pouco alterada aqui, a fim de contemplar mais propriamente o conteúdo do que a simples “contabilidade literária”, como costumo chamar a análise que se atém exclusivamente aos aspectos estruturais do poema.

Consideraremos, para efeito desta análise, que o poema está dividido em três outros núcleos: o primeiro núcleo, que chamaremos de núcleo perquiridor (em azul, para efeito didático [e bárbaro, no mau sentido. Perdoem-me, puristas.]), é aquele que vai do primeiro ao quinto verso; o segundo núcleo, que chamaremos de núcleo passageiro (em vermelho, para efeito didático…), contém os versos seis e sete; o terceiro núcleo, que começa pelo oitavo verso e vai até o fim do poema, será chamado de núcleo respondente (em preto [Ah!, que alívio.]).

A característica principal do chamado núcleo perquiridor é conter, em cinco versos, quatro perguntas, quatro indagações. Essas quatro perguntas procuram saber, em termos gerais, onde está o “mistério das coisas”. O primeiro verso – é fácil perceber –  instaura claramente a pergunta central do texto: a necessidade de saber onde está o “mistério das coisas”. O segundo e o terceiro versos, formadores de uma mesma pergunta, parecem indicar uma reiteração, até certo ponto dramática (a expressão “pelo menos” é dramática), da pergunta feita no primeiro. Porém, já trazem um paradoxo, que é o de pedir à figura do mistério que se revele.

Ora, todo mistério que se revela, deixa de sê-lo. Então, mais do que dramaticidade a pergunta encerra certa ironia. Se encerra certa ironia, é porque traz consigo a convicção de que as coisas não contêm mistério algum. Se as coisas não possuem mistério por detrás de sua aparência, temos, diante de nós, um poeta descrente do etéreo, um poeta antimetafísico, um poeta descrente da essência das coisas, um poeta fiel à materialidade ou, no extremo antagônico e ao mesmo tempo semelhante, um poeta crente, crente da matéria.

[Pausa: estou usando o termo “poeta” para referir-me a Caeiro e à voz do poema. Alguns críticos não recomendam o uso do termo “poeta” para fazer referência a essa voz, preferindo usar o termo “eu-lírico”, ou algo semelhante, como modo de distinguir a voz do texto da voz do poeta-pessoa-física. Além disso, ao usar "eu-lírico" – argumentam tais críticos – retiramos o poder da voz de quem fala no poema das mãos (ou melhor, da boca)  do autor, passando, democraticamente, tal poder a um ser imaterial, comum a todos que lêem o poema, ser que terá, supostamente, a possibilidade de sentir-se, em última análise, uma espécie de compositor do texto, um co-partícipe do processo de criação, um leitor-autor. Há um pouco de cinismo literário-populista nisso, mas já me estendo... Bem, o que me importa dizer aqui é tão-somente isto: ao chamar de “poeta” a voz que fala no poema, eu não me refiro à pessoa física nenhuma, pois Caeiro, a voz de que falo, o poeta de que falo, já não é Pessoa – se é que me entendem...].

Voltemos ao poema: o verso quatro – observem-no [dica ao leitor ainda inexperiente na análise poética: é bom imprimir o poema, em vez de ficar subindo e descendo a tela pela barra lateral do computador] – confere à arvore e ao rio uma possibilidade que é, pelo menos em tese, exclusividade de yahoos, digo, humanos: saber.  Como há muito estamos distantes do animismo, temos aqui alguma estranheza, algum estranhamento. Mas o que é a literatura senão uma porta aberta à estranheza, ao estranhamento? Os formalistas russos que o digam, ou lhe digam (perguntem à professora).

O verso quatro já era forte o suficiente para indicar o pensamento do poeta, mas este, generoso, resolveu abrir ainda mais sua lógica e, no verso cinco, explicita, confessionalmente, o que no verso anterior fora “só” espanto: a equiparação entre homem e natureza. Essa equiparação entre o racional (isto é, o humano) e aquilo que se nos apresenta gratuitamente e sem explicação plena por parte da ciência (isto é, a natureza) visa, na ótica de Caeiro, a destituir o homem da posição que ocupa, ou pensa ocupar, neste mundo. Trata-se da velha questão do fracasso do antropocentrismo [assunto sobre o qual já falei, aqui mesmo neste site, no texto “Abelhas e homens” e sobre o qual não me estenderei mais. Tal texto está disponível nos arquivos de dezembro de 2008 aí à direita]. Não sei se repararam que acabei de citar a “ótica” de Caeiro. É que ao encerrar a análise deste primeiro núcleo de seu poema, que chamei de núcleo perquiridor, quero já chamar a atenção para o primeiro verbo que ao leitor se revela no verso seis, o verbo olhar.

No verso seis, início do núcleo passageiro, o poeta olha para as coisas e depois, conforme ele próprio nos diz, pensa no que os homens pensam delas. Há neste verso duas obviedades: primeiro o olhar, primeiro o contato físico com o mundo; depois o pensar, mas não exatamente o pensar sobre o mundo, mas o pensar sobre o que os homens pensam do mundo. Nessa atitude de não pensar o mundo, mas de pensar o que os homens pensam do mundo, o poeta se exclui –voluntariamente, é claro – da condição de homem comum, colocando-se muito mais ao lado da natureza (do regato, da pedra e do aspecto oculto e ignorado de quem os criou) do que ao lado da racionalidade de seus companheiros primatas (sapiens sapiens, mas burrinhos). E Caeiro está certo. O poeta não pode mesmo navegar pelas mesmas águas em que navegam os homens previsíveis, senhores de uma razão obtusa que nos governa e cerceia. O pensar de Caeiro é outro. E então lhe vem o riso, e um certo deboche (verso 7). O riso, como ouvimos ao ler o que está escrito no poema, é representado pela figura do regato que passa por uma pedra: o som constante da correnteza se assemelha ao som do fluxo de riso ininterrupto que só se obtém em situações de extrema alegria ou comicidade. O riso: algo que o poeta consegue com certa facilidade. Sim, senhores, o poeta ri. E não é ele palhaço algum. [Para um textinho sobre minha visão do trabalho do poeta, procurar algo sobre Heidegger e Hölderlin que escrevi aqui no site, também nos arquivos de dezembro de 2008].

Os versos seis e sete, que, conjuntamente, formam o que chamei de “núcleo passageiro”, são, conforme a expressão indica, uma passagem aos versos seguintes, que, por sua vez, responderão à perquirição do primeiro núcleo. Diferentemente da perquirição dos primeiros cinco versos, a passagem dos versos seis e sete é um mergulho mais profundo no caráter do poeta. Caráter no sentido aristotélico, como característica de personagem. Em tais versos, o poeta mergulha em si e demonstra efetivamente o que é diante do mundo, ou como se comporta diante do mundo. Então, a partir do verso 8, o poeta passa a explicar (percebam que o verso começa pela conjunção “porque”) ou, melhor ainda, passa a explicitar, a abrir, a revelar (verbo caro à filosofia) o que é o mundo e como ele o interpreta. O tom dos versos é o do indubitável. As certezas articuladas pelo poeta nos vêm em camadas: a cada verso, ou grupo de versos, uma declaração peremptória.

Os versos 8 e 9 (“Porque o único sentido oculto das coisas / É elas não terem sentido oculto nenhum”) exemplificam bem a indubitabilidade que move o poeta, mas exigem um pequeno esforço interpretativo. Em primeiro lugar, fala o poeta em “o único sentido oculto das coisas” – do que deduzimos que todos os demais sentidos não são ocultos. Há, portanto, somente um sentido oculto, que é, conforme o verso 9, o fato de as coisas não terem sentido oculto nenhum. Percebam: é como se o poeta nos dissesse que apesar de pensarmos que há um sentido oculto por detrás de todas as coisas – uma ontologia que tudo explica – não há, não. É como se fosse um alerta um pouco impaciente de quem sabe, e precisa transmitir o que sabe aos obtusos ouvintes: “o único sentido oculto das coisas [, seus tolos,] é elas não terem sentido oculto nenhum”, diz o poeta, como se tivesse comungado com a ubiqüidade de um ser superior que tudo visse e cuja compreensão fosse muito maior do que a compreensão que nós podemos conceber. O poeta, assim, arvora-se em deus. Mas é um deus da matéria que está dada diante de nós, um deus que não busca ligar-se (ou religar-se) a nada, a não ser à concretude das coisas. Encaminhando o final de sua fala, do verso 10 ao 15, faz a (auto?)crítica a dois grupos de antigos detentores do saber da tradição ocidental: poetas e filósofos.

Poder-se ia perguntar por que se faz a consideração dos versos 10 a 15 em separado dos versos 8 e 9, já que todos pertencem à mesma estrofe. A resposta é simples e se dá por dois caminhos: 1) pela pontuação (há um ponto ao final do verso 9); 2) pelo conteúdo dos versos. Esse conteúdo revela-se  pela inflexão da voz do poeta,  rumo à comparação (percebam o “do que”[verso 10], o “de que” [verso 11] e o “que” [verso 13], todos elementos comparativos). Porém, antes de rumar à comparação entre “objetos” distintos, o poeta insiste em um verbo fundamental, o verbo ser [“é”], presente na abertura do verso 9 e na abertura do verso 10. Qual é o conteúdo de tal verbo? O de afirmar peremptoriamente e, mais importante do que isso, negar que se diga algo em contrário. Quando se diz que tal coisa “é assim”, a pretensão retórica é [!] a de demonstrar ao interlocutor convicção e, mais ainda, revelar a ele a essência do objeto de que se fala. O poeta – flagramos aqui – começa a pretender instituir certezas e, ao fazê-lo, efetivamente ingressa em terreno que não é, hoje, inteiramente seu. Como ele institui tais certezas? Descolando-se da própria condição de poeta e diminuindo a importância dos filósofos: “É mais estranho do que todas as estranhezas / E de que os sonhos de todos os poetas / E os pensamentos de todos os filósofos / Que as coisas sejam realmente o que parecem ser / E não haja nada que compreender”. Os sonhos dos poetas – diz-nos o poeta como se tudo olhasse de cima – e os pensamentos dos filósofos – diz-nos também o poeta como se tudo olhasse de cima – estão aquém das coisas, que são puro “parecer”. Porém, cuidado: este “parecer” das coisas de que nos fala o poeta não é o “parecer” comum do cotidiano, quando, por exemplo, dizemos, em expressão de dúvida, que “tal coisa parece ser assim”. Não. Este “parecer” das coisas é o modo pelo qual elas são em si, antes da interferência da consciência humana. É o modo pelo qual elas se revelam ou vêm a luz, fenomenicamente, de modo independente de nossa consciência [Para simplificar: à pedra é irrelevante a existência do humano. A pedra continuará a ser pedra, tenhamos ou não consciência dela.] Em resumo: pode-se dizer que o poeta, neste ponto do poema, começa a alçar vôo para além da esfera de incidência dos próprios poetas e dos filósofos.  Recomendação: pausa para o café, antes de ler o próximo parágrafo.

O poeta, como lemos no verso 13, declara que as coisas são “realmente o que parecem ser”. Pois bem: o uso do advérbio “realmente” implica o conhecimento filosófico de que tal advérbio deriva de “res”, palavra latina que significa “coisa”. O que chamamos de “real” [latim: realis] é o mundo do tangível, o mundo das coisas propriamente ditas, que existem de fato. No verso 14, que complementa o 13, o poeta diz, então, que não há nada a compreender [atenção para este verbo], sublinhando, portanto, a distinção entre dois mundos: o mundo das coisas, independente da consciência humana (verso 13), e o mundo da consciência humana,  voltada ao “compreender” (verso 14). Importante mesmo é o fato de o poeta dizer que “não haja nada a compreender”, algo que analisarei a seguir, no próximo parágrafo. Antes, porém,  é preciso que já leiamos os três últimos versos do poema: “Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:/ As coisas não têm significação: têm existência. /As coisas são o único sentido oculto das coisas”. Vejamos o verso 15, em que o poeta diz que seus sentidos “aprenderam sozinhos”: trata-se da defesa incontestável da intuição, da preponderância do sentir sobre o pensar.  Vejamos também os versos 16 e 17 (“As coisas não tem significação: tem existência / As coisas são o único sentido oculto das coisas”): Muito bem, são versos declarativos, afirmativos e pretendentes da revelação da essência das coisas (verbo “ser” no último verso…). São, como já disse acima, quando tratei dos versos 9 e 10, versos de imposição retórica. Amplio meu raciocínio: pelo verbo ser, no presente do indicativo, nós, humanos, alçamo-nos ou pretendemos nos alçar à onisciência. O verbo ser é a forma pela qual a linguagem mais se aproxima da certeza. Mas de que certeza? Uma certeza humana, demasiadamente humana, como diria aquele filósofo alemão indevidamente estudado, arguto perquiridor da nossa fragilidade. Uma certeza humana, falível.

Voltemos ao poema e pensemos em nossa falibilidade, já aplicada a Caeiro: se, de um lado, como diz Caeiro, é possível que os sentidos aprendam sozinhos, isto é, intuitivamente, de outro, não é possível que a comunicação de tal fato pelo poeta nos seja dada intuitivamente, mas somente pela linguagem, algo bastante racional (o que é a linguagem senão a razão em forma concreta?). Se, de um lado, é possível a Caeiro dispensar (retoricamente, como já disse) o ato de compreender, de outro, para chegar a esse desprezo é preciso alto esforço racional e, para comunicá-lo, é preciso novamente fazer uso da razão e da linguagem. É a nossa sina.

E aqui encerro: não se nega a intuição pura, o puro sentir, mas é preciso lembrar que, a partir do momento em que tal intuição se expressa em palavras (o que faz o poeta senão trabalhar com palavras?) prevalece o que achávamos estar perdido: a reflexão, o pensar, a racionalidade. Fechadas todas as portas e janelas à razão, ela volta pelo conduto da exaustão do intuitivismo. Essa a nossa vocação como humanos, essa a nossa falível inevitabilidade. O diapasão da racionalidade na obra do poeta aparentemente intuitivo, poeta-filósofo, pacificador do medo infundado de Platão. O cérebro e as sinapses: nossa culpa, nossa máxima culpa.


Omoo, ou mais uma tradução de Melville

31/08/2009

omoo

Aí está mais uma tradução, ainda não integralmente revisada, de uma obra  de Melville inédita em língua portuguesa. Desta feita, apresento tão-somente a primeira página de seu segundo romance, Omoo [um dia explico o título].  O original vai em preto; minha tradução, em azul.

Como meus trabalhos de mestrado e doutorado basearam-se em obras do autor nova-iorquino, sinto-me à vontade para traduzi-lo. As editoras, com raras exceções, é que não gostam de publicá-lo, seja no Brasil, seja em Portugal… Um dia acordam.  

 

Omoo (Herman Melville)

Part I

Chapter I

Omoo (Herman Melville)

Parte I

Capítulo I

My reception aboard

It was the in the middle of a bright tropical afternoon that we made good our escape from the bay. The vessel we sought lay with her main-topsail aback about a league from the land, and was the only object that broke the broad expanse of the ocean.

Minha recepção a bordo

Foi no meio de uma tarde clara nos trópicos que conseguimos finalmente escapar da baía. A cerca de uma légua da costa, o navio que procurávamos, com sua vela principal arriada, era o único objeto a quebrar a vastidão do oceano.

On approaching, she turned out to be a small, slatternly-looking craft, her hull and spars a dingy black, rigging all slack and bleached nearly white, and everything denoting an ill state of affairs aboard. The four boats hanging from her sides proclaimed her a whaler. Leaning carelessly over the bulwarks were the sailors, wild, haggard-looking fellows in Scotch caps and faded blue frocks; some of them with cheeks of a mottled bronze, to which sickness soon changes the rich berry-brown of a seaman’s complexion in the tropics.

Quando nos aproximamos, tal embarcação revelou-se pequena e malcuidada, o casco e os mastaréus eram de um preto já esmaecido, o cordame todo frouxo e esbranquiçado – tudo a denotar uma situação desfavorável a bordo. Os quatro botes que pendiam do barco proclamavam: tratava-se de um baleeiro. Debruçados de maneira negligente por sobre a amurada estavam os marinheiros, homens de aspecto selvagem e bárbaro, com seus gorros escoceses e jaquetas de um azul desbotado; alguns tinham a face mosqueada de bronze, cor para a qual, nos trópicos, a doença logo muda a antes rica e avermelhada face dos marujos.

On the quarter-deck was one whom I took for the chief mate. He wore a broad-brimmed Panama hat, and his spy-glass was levelled as we advanced.

No tombadilho, havia um homem que julguei ser o imediato. Usava um chapéu panamá de aba larga, e seu telescópio apontava para nós enquanto nos aproximávamos.

When we came alongside, a low cry ran fore and aft the deck, and everybody gazed at us with inquiring eyes. And well they might. To say nothing of the savage boat’s crew, panting with excitement, all gesture and vociferation, my own appearance was calculated to excite curiosity. A robe of the native cloth was thrown over my shoulders, my hair and beard were uncut, and I betrayed other evidences of my recent adventure. Immediately on gaining the deck, they beset me on all sides with questions, the half of which I could not answer, so incessantly were they put.

Ao chegar à lateral do navio, ouvimos vozes graves percorrerem o convés, e todos nos fitavam de maneira inquiridora. Tinham razão em fazê-lo. Para não falar da incivilizada tripulação de nosso bote, pulsando de tanta agitação, toda gestos e vociferações, minha aparência por si só já provocava curiosidade. Um manto feito com tecido nativo envolvia-me os ombros, meu cabelo e barba estavam grandes e desgrenhados – minha própria figura traía outros indícios de que recentemente passara por uma aventura.Tão logo ganhei o convés, cercaram-me por todos os lados com perguntas, metade das quais não pude responder, pois era ininterrupto o fluxo pelo qual me eram feitas.


A vida na Disneylândia

27/07/2009
Walt, em momento de definição de nosso futuro

Walt, em momento de definição de nosso futuro

Para além das vicissitudes da vida comum de professor, que, como sabemos, não é, em geral, espetacularmente bem remunerada, o profissional que se dedica ao estudo da língua e da cultura inglesas (ou norte-americana) precisa, no Brasil, estar pronto para ser um bom amigo de Mickey Mouse. Nada de Shakespeare, Conrad ou Melville, senhores. Mickey Mouse. 

Não posso e nem tenho condições de fazer, aqui, longo estudo sobre o tema. Atenho-me apenas aos ideais que governam certa classe média que, convencida de que suas necessidades são as necessidades do mundo todo, cria, direta ou indiretamente, oportunidades de trabalho para quem tenha resolvido estudar a sério alguma língua/cultura estrangeira, especialmente a inglesa e suas derivações.  

O quadro é o seguinte: estuda-se com razoável seriedade um idioma e sua literatura, em nível universitário, não raro estendendo o estudo à pós-graduação, para, depois, trabalhar quase que exclusivamente no ensino de línguas, já que literatura de fato não interessa ou pouco rende. Seja em cursos livres, seja em renomados institutos ou nas faculdades e universidades, o que predomina, porém, é a mentalidade Disney. Começa-se, então, a entender melhor que aqueles professores intelectualmente mais obtusos da universidade são os que gozam de maior sucesso material em todas as instâncias (afinal, eles souberam sempre atender ao Mercado, esse Deus bonzinho e sorridente). No ambiente de trabalho, há a presença constante de senhoras com muitas luzes nos cabelos e nenhuma no cérebro – senhoras maquiadas até a medula (a fim de renegar a todo custo o peso da idade em prol da aparência plasticamente aceitável, determinada por senhores a elas semelhantes e cuja inteligência é tanta que já lhes fugiu da cabeça para transmutar-se em gordura e dinheiro). São essas senhoras que, curiosamente, fazem as vezes, assim, como quem nada quer, de coordenadoras de cursos, isto é, são também as sábias condutoras de uma segunda classe, a dos professores. 

O discurso das indigitadas coordenadoras é, com muita freqüência, o seguinte: 1) nos cursos livres, é preciso preparar, com urgência, os adultos para o mundo dos negócios, e os adolescentes para a obrigatória visita à Flórida (Orlando, gente!), à Califórnia (onde tudo começou…) ou, alternativamente e por culpa do Melville, é claro, a algum local paradisíaco nos mares do Pacífico Sul. Afinal, nada há de mais importante no mundo do que business e diversão – ou seja: o binômio trabalho e recompensa, ideal de toda alma cristã, materializado integralmente right here, right now, para consumo imediato; 2) nas faculdades e universidades, é preciso instituir e idolatrar a vaca sagrada do “inglês instrumental”, hoje disfarçado sob outros nomes, para que todos disponham das “ferramentas” com que possam “operar no Mercado” (leia-se: aprender truques para bem explorar o bolso dos outros). 

Conclusão: a língua e a literatura estrangeiras stricto sensu não mais importam: são somente objeto de estudo de “especialistas” dos cursos de Letras, de sisudos senhores trancafiados em alguma obscura sala da academia. Detalhe importante: tal sala e tais senhores já não existem, mas, como nós, intelectuais, também gostamos de viver miticamente, fingimos sua existência. É a nossa Disneylândia.


João Simões Lopes Neto e a miséria intelectual dos gaúchos

07/06/2009

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Qualquer aluno de Literatura Brasileira que se interesse pelos escritores gaúchos terá, como uma espécie de obrigação, tomar conhecimento da obra de Simões Lopes, seja por questão lingüística, seja por questão cultural. Ao ler Simões Lopes Neto, até o gaúcho se sente, digamos, mais gaúcho, ingressando, porém, em um mundo de contradições.

Comecemos pela linguagem: o vocabulário presente na obra de Simões Lopes, campeiro, não é utilizado nos centros urbanos de hoje, exceto em alguns círculos restritos, como objeto de curiosidade acadêmica em alguns departamentos de Literatura, ou em livrarias/sebos mais atilados. Infelizmente, tal vocabulário resiste, também, no arremedo distante e esmaecido (portanto, já sem aquela aura de que nos falava o autor de A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução) apresentado no linguajar de gauchinhos de meia pataca, fantasiados com suas bombachas e alpargatas, que tomam chimarrão por uma espécie de dever religioso, como se tomassem o sangue de Cristo e que, não raro, reúnem-se para bater pé nos finais de semana – como se isso significasse manutenção de alguma tradição, e não teimosia aliada à necessidade burra de continuar incorrendo em erro histórico.

Culturalmente, o pelotense Simões Lopes põe-se contra (de forma involuntária e  quase 100 anos depois de sua morte, mal saberia ele) o romantismo homofóbico,  urbano e burro do pensamento [?] dos patrões de  CTGs e seus seguidores, todos eles afeitos à lógica escapista de que em Pelotas não há machos. – Não há pelotense que não tenha ouvido de seus conterrâneos gaúchos a pecha de ser oriundo de uma cidade por demais, digamos, afrescalhada.

Para resumir o quadro a quem não é do Rio Grande do Sul: a nobre e culta população do Pampa, seja ela açoriana, alemã ou italiana [aqui obviamente há ironia não só em “nobre” e “culta”, mas principalmente em “Pampa” – ironia que se explica facilmente quando se vai à Serra Gaúcha e se vê que os serranos, em sua maioria de origem italiana e alemã, declaram-se pampeanos e comedores de churrasco, ou quando se vai ao litoral norte do Estado e se percebe a mesma ideologia em homens que pastoreiam não o campo, mas o mar]  – a nobre e culta população do Pampa, dizia eu, criou o mito de que pelotense sempre foi sinônimo de não-gaúcho (para as questões históricas que levaram a esse mito é preciso um pouco mais de paciência do que disponho aqui). São, curiosamente, esses mesmos  gaúchos sectários, habitantes de um Pampa de papel, que, idolatram o pelotense Simões Lopes. Esses gaúchos de mierda, perdoem-me o termo, em sua estultícia, não percebem contradição alguma no desprezo que dispensam a Pelotas e o fato de o autor de “Contos Gauchescos” e “Lendas do Sul” ser resultado, para o bem ou para o mal, justamente da cultura da cidade que tanto desprezam [Duas observações: 1) Há evidente relação entre o histórico da cidade, mais precisamente da extinção da riqueza decorrente do "império do charque", e as implicações desse quadro social na própria existência errante, e aos poucos depauperada, do próprio escritor João Simões Lopes Neto, que pertencia à família abastada... 2 ) A Pelotas de hoje é tão provinciana quanto sempre foi, assim como qualquer cidade do Rio Grande do Sul, inclusive  Porto Alegre. Os escritores gáuchos, também em geral  provincianos, já não conseguem, porém, como conseguiu Lopes Neto, passar do regional ao universal. Que pena...].

Continuando: Ficam também bravos esses gaúchos sem bolas – ou pelotas – quando vêem, hoje, programas humorísticos televisivos do centro do país aplicarem não só a Pelotas, mas a todo Rio Grande do Sul, a mesma lógica do desprezo homofóbico de que eles próprios sempre fizeram uso. Ou seja: estão esperneando depois de provar do próprio veneno. Coisa típica de homens delicados. Sinceramente, não sei onde está maior pobreza de espírito: se na mente obtusa da gauchada que vive sob o mito do gaúcho criado por estudantes secundaristas porto-alegrenses na metade do século XX [procure ler os historiadores gaúchos sérios, aqueles não comprometidos com os mass media] ou se no humor de quinta categoria de delicados cariocas. Centrados que estão, ambos os grupos, no uso que o cidadão faz de seu próprio corpo, esquecem-se de sua parte mais nobre, o cérebro, para deterem-se na análise psicológica e cultural do ânus. O pensamento que lhes vêm, então, só poderia ser mesmo diarréico. São, como disse, não só gaúchos (ou cariocas…) de mierda, mas que dela se comprazem.

Toda essa escatologia me ocorre no momento em que (re)vejo a literatura (?) gaúcha rebaixar-se ainda mais,  desta feita tendo como mote principal uma ação de dano moral de midiática escritora (um oxímoro) contra acerbo crítico amador (pleonasmo) que ousou fazer trocadilho entre seu (dela) sobrenome polonês e uma rídicula, permitam-me a expressão,  ”alcunha vaginal”. Como se a vagina não fosse algo a ser para sempre exaltado, ela que é a mãe, veículo da vida, além de ídolo recôndito de todos nós, homens…  

Enfim, diante do prato ruim que nos serviram, pergunto: Vai uma pitada de elegância gaúcha à moda Simões Lopes aí?

Contrabandista (João Simões Lopes Neto)

Esse gaúcho desabotinado levou a existência inteira a cruzar os campos da fronteira; à luz do sol, no desmaiado da lua, na escuridão das noites, na cerração das madrugadas…; ainda que chovesse reiúnos acolherados ou que ventasse como por alma de padre, nunca errou vau, nunca perdeu atalho, nunca desandou cruzada.

Conhecia as querências, pelo faro; aqui era o cheiro do açouta-cavalo florescido, lá o dos trevais, o das guabirobas rasteiras, do capim-limão; pelo ouvido: aqui cancha de graxains, lá os pastos que ensurdecem ou estalam no casco do cavalo; adiante o chape-chape, noutro ponto,  o areão. Até pelo gosto ele dizia a parada, porque sabia onde estavam águas salobres e águas leves, com sabor de barro ou sabendo a limo. 


Filosofia e literatura: algumas derivações impróprias de opúsculos de Herman Melville

12/05/2009

 

Arrowhead, home of Melville

Arrowhead, home of Melville

Este texto foi escrito há alguns anos, em momento embrionário de uma certa tese. A edição, o título, os subtítulos, os comentários entre colchetes, além de algumas inserções no corpo do próprio texto, datam de hoje. O texto é longo… Porém, como nos consola Drummond naquele último verso de um poema marítimo/praiano, há uma saída: “dorme, meu filho”.

 

 I – Filosofia e poesia lato sensu

Talvez se possa dizer que o modo de pensar filosófico e o modo de pensar poético difiram pelos seguintes fatores: enquanto o primeiro busca a  não ambigüidade,  a transparência e a remoção da voz pessoal, o segundo busca a valorização da ambigüidade (dando espaço para o leitor jogar), tem linguagem opaca e abdica da citada remoção da voz pessoal, insistindo em ter estilo [vaidade intolerável...]. Sendo duas maneiras distintas de perceber o mundo, atingidas pela concepção platônica de que o sensível e o inteligível não se integram, faz-se a seguinte pergunta: como essas maneiras tratam, então, aquilo sobre o que não se pode falar, o indizível, aquilo que permanece desconhecido? 

O discurso filosófico, sem dúvida, debruça-se sobre o discurso poético pela tentativa que lhe é inerente de tudo abranger, explicar e conceituar. O mesmo não se pode dizer do discurso poético, que não tem como primeira, e nem última, de suas premissas a busca do conceito,  não se voltando  — pelo menos não com intenção epistemológica — à filosofia. Desde a República de Platão e a Poética de Aristóteles, tem-se levado em consideração tal modo epistêmico (e hierárquico) de compreender a relação entre a filosofia e a poesia (ou literatura), isto é, uma relação de dependência do pensar poético ao pensar filosófico, estando aquele subjugado a este, que lhe determina um determinado lugar e uma determinada subalternidade. Resta saber se essa hierarquia ainda tem algum sentido ou se é possível pensar “uma nova poética, liberada da tutela da metafísica, devotada à linguagem da poesia, e não ao discurso da filosofia” (Melo e Souza, p. 124).

Não é sem essa consciência que aquele que resolve voltar-se ao estudo do que hoje chamamos de literatura faz suas escolhas. Como a literatura tende a ocupar cada vez mais um espaço que se relaciona à troca e ao descarte, não deixa de ser anacrônico (no bom sentido do termo), tentar resgatar nela algo que lhe confira maior perenidade. Em se tratando de perenidade, não se pode ignorar a presença da herança grega. Por isso, pela analogia e pelo raciocínio lógico, é que o estudioso da literatura tende a cotejar o que lê com o que se produziu no século V grego [a. C., obviamente]: é como se lá estivesse a matriz de um pensamento que se impõe, que não se troca e que não é descartável.

Aceitar a  inevitabilidade do que está por acontecer é algo que diz respeito a um pensamento de fundo fatalista, e esta é a explicação que normalmente se dá ao conteúdo das tragédias: a resignação do homem diante da inexorabilidade de um destino já traçado. Essa resignação, contudo, é apenas parte do processo, uma fagulha antropocêntrica ainda não consciente de que maior do que o próprio homem e maior do que seu próprio destino é o próprio destino em si. Não se deve, no exercício de uma ingênua humanidade intransitiva e “superior”, abdicar de compreender a condição de fagulha que ocupamos. Se não houvesse homens, o mundo não deixaria de existir. Houvesse a realização de uma catástrofe de fato irreversível em um pequeno planeta do sistema solar [ecos nietzschianos aqui], a Via Láctea permaneceria — assim como permanece o homem depois de cortar, digamos, suas unhas.  Dessa forma, o herói trágico não deixa de ser como a representação de uma mariposa que momentaneamente confunde a lâmpada com a lua e que só ao final de um vôo infrutífero e longo dá-se conta de seu equívoco [ecos cazuzianos (risos). Em Blues da piedade, assim cantava Agenor: “... como insetos à volta da lâmpada”]. Não havendo o discurso filosófico – e nem o conhecimento científico, pela mais avançada biologia, com a clonagem, códigos de dna [e outros avanços indispensáveis à minha felicidade diária] – ainda conseguido decifrar na raiz o que antecederia o homem, caberia ao poético tal primazia?

 

II – Um pouco da angústia dinamarquesa e do sempiterno Bartleby         

Aquilo a que chamamos de angústia [no bom sentido do termo, o filosófico] diferencia-se do que chamamos de medo pelo fato de que este exige um objeto que o provoque; aquela, não. A angústia de nada depende. O homem angustiado seria, então, aquele que desconhece a raiz do que ele próprio é. É dessa forma que o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard, em  O Conceito de Angústia [tradução portuguesa esgotada; há uma inglesa (Princeton, 1980)], busca no mito bíblico da queda, isto é, no pecado original, a explicação para a angústia. Como pode alguém ser punido por pecar sem, como Adão e Eva, saber/conhecer o que é o pecado? A ignorância de ambos sobre o objeto de seu pecado, e sobre o próprio conceito de pecado, garante sua inocência. Sim, Kierkegaard ironiza a “lógica” do Gênesis.

Se fizéssemos a troca da queda, do pecado original, pela hamartia, estaríamos na alçada da herança grega. A punição da tradição judaica é apenas mais exclusivamente divinizada do que a punição grega, mais humana, ainda que também divina. Em ambas as tradições, pelo menos no mito de Adão e em Édipo, o que está no subterrâneo é a necessidade de conhecer, impedida pela ignorância.

Em um estudo mais amplo, realizado anteriormente, busquei “demonstrar” [esse “demonstrar” é irônico. Nas Humanidades não demonstramos nada, filho] como uma personagem da literatura norte-americana do século XIX de certa forma [ou seja, de forma incerta, como diria Millôr Fernandes] reproduzia o que Kierkegaard chamou de angústia: Bartleby, de Herman Melville, é uma personagem que “concretizaria” a angústia, representando-a de maneira pura e explícita em seu moto “I would prefer not to”, que a tudo nega, funcionando como um verdadeiro buraco negro, ou melhor, uma “ausência-presente” [como, aliás, são as palavras. Dizem que as palavras são “a presença da ausência da coisa”] que aos poucos exaure todo o sentido ainda restante da vida de um advogado, seu antagonista, em um ambiente de trabalho em que todos já estão coisificados. Bartleby seria como aquele “sem objeto” inerente à angústia do antagonista e de outras personagens. Saliente-se que esse efeito de “concretização” da angústia é conseguido pela constante repetição da frase “I would prefer not to”. Em outras palavras: é pela linguagem que Melville consegue dar forma ao desconhecido.

A questão que agora se põe é a seguinte: Em que medida essa forma que a linguagem literária confere ao desconhecido pode impor-se diante da metafísica, que faz o mesmo de maneira mais, por assim dizer, metódica?

 

III – Billy Budd, passando por Steiner 

Se a força dos gregos de fato persiste, não há nada de errado em perscrutar sua herança no autor que se escolhe estudar. Pergunta-se: O que pode haver de dramático, ou trágico, em uma personagem da literatura norte-americana do século XIX? Busca-se, natural e primeiramente, a tentativa de uma definição do que poderá caracterizar uma personagem cujo destino é trágico. Para além da definição de Aristóteles, isto é, a exigência do caráter elevado da personagem, tem-se em Billy Budd alguém que não pertence a grupo ou estirpe. Billy Budd não pertence à família nenhuma, não tem ascendência (“his entire family was practically invested in himself” p. 14). Seu nome deixa entrever uma certa infantilidade, uma certa inocência ratificada pelo uso de um apelido (Billy) em que há sufixo diminutivo (o “y”) em vez do nome (William),  aliado a “Budd”  (alusão a algo que está por surgir, por brotar). Além disso, sua natureza afasta qualquer perspicácia no que diz respeito ao domínio sofisticado da linguagem (“to deal in double meanings and insinuations of any sort was foreign to his nature” p. 14). Como se vê, essa obsessão com a inépcia lingüística, seja pelo tom monocórdico de Bartleby, seja pela gagueira ou quase mudez de Billy Budd, parece ser inerente às personagens criadas pela ironia de Melville: somente um escritor de refinada  ironia pode dispor-se a apresentar personagens que renunciam ao dizer – personagens que, ao reduzirem-se ao quase silêncio, muito dizem.

 Retomando-se o argumento inicial desta pequena exposição: como pode, então,uma personagem trazer caracteres daquilo que costumamos chamar de trágico? Segundo indica George Steiner, em alusão ao Unheimlichkeit [dicionário de alemão?], a personagem trágica, ou a tragédia é “the dramatic representation or, more precisely, the dramatic testing of a view of reality in which man is taken to be an unwelcome guest in the world” (Prefácio – p. xi) ["a representação dramática ou, mais precisamente, a prova dramática de uma visão de realidade na qual o homem é considerado uma persona non grata, um convidado indesejável, no mundo"]. Talvez se possa aqui traçar uma certa analogia com o que se chamou de angústia – a percepção de que é inevitável o descaso com que o mundo exterior recebe o homem que pretende conhecer. Diante desse descaso é que se montam, contudo, e se aperfeiçoam, ao longo da história da humanidade, tentativas – sempre discursivas –  ou caminhos para a compreensão desse sentido de não pertencimento. Detectam-se, para fins de limitação, dois caminhos primordiais: um, o caminho filosófico; outro, o caminho da arte. Caminhos distintos, de acordo com a percepção de Hegel, na Estética: “o pensamento, diz-se, tem um processo lógico, científico, filosófico, e o belo e a arte são de tal natureza que escapam às possibilidades da filosofia” (p. 16).

 

IV – Hegel, então

A escolha de uma determinada obra de arte literária para referendar um determinado pensamento crítico é algo dependente, em geral, daquele que a escolhe. Se a perspectiva do crítico pressupõe que a obra literária faz parte de um grande sistema a que chamamos de arte, domínio que dialoga com algo maior (maior?) que chamamos de filosofia, é natural que apelemos a Hegel.

Valemo-nos, então, aqui, neste pequeno texto, de uma obra de arte literária como ponto de partida para a reflexão. Nossa [isto é, minha] reflexão extrapola os limites meramente textuais, idos estão os tempos do estruturalismo, e pretende penetrar um pouco mais naquilo que se diz pertencer à filosofia. O estudo de uma obra literária sempre abre a possibilidade de que o estudioso nela veja uma espécie de metáfora para a vida; metáfora a partir da qual se pode estudar e compreender um pouco mais do sentido da própria vida ao mesmo tempo que se faz uma análise do quanto o “instrumento” literário pode fazer para facilitar tal compreensão.

As obras de arte são também um modo de conhecer. Tal concepção é o contrário do que prega o senso comum, segundo o qual as obras de arte “escapariam ao domínio do pensamento científico porque a sua origem estaria na imaginação indisciplinada e no sentimento” (Hegel, p. 17). Acrescente-se: “Outro argumento se poderia ainda opor à possibilidade de um tratamento científico da arte. Dir-se-ia que a arte é o reino da aparência e da ilusão e que, portanto, àquilo a que chamamos belo se poderia também chamar aparente e ilusório” (Hegel, p. 21). Mas, como afirma o próprio Hegel, a aparência não é inessente [dicionário?]. Além disso, “na arte, como no pensamento, é a verdade que procuramos. Em sua própria aparência, a arte deixa entrever algo que ultrapassa a aparência: o pensamento; ao passo que o mundo sensível e direto não só não é a revelação do pensamento implícito como ainda o dissimula numa acumulação de impurezas para que ele próprio se distinga e apareça como único representante do real e da verdade. Adestra-se em tornar inacessível o dentro que encerra no fora, isto é, na forma. Pelo contrário, em todas as representações, a arte põe-nos em presença de um princípio superior. Naquilo a que chamamos natureza, mundo exterior, muito dificilmente o espírito se encontra, se reconhece” (Hegel, p. 22/23).

A obra de arte literária, para além do contexto em que viveu o autor que a produziu, está inserida, queira-se ou não, em um sistema maior que a submete, no extremo da especialização, à apreciação crítica [ainda que no Brasil, os críticos literários estejam morrendo]. Essa crítica não seria crítica se não levasse em consideração o aporte filosófico, isto é, as considerações de cunho estético realizadas pelos chamados grandes pensadores ocidentais. Diante dessas considerações, a obra de arte, para além da mera  tentativa de contextualização histórica empreendida por quem analisa a literatura (análise por si só necessária e até óbvia, mas que muitas vezes não deixa de ser uma aprovação à lógica de que a arte é escrava mimética do período em que foi produzida – especialmente quando o crítico  faz a contextualização pela contextualização visando a transformar a arte em meio que deve sublinhar esta ou aquela visão política), permanece e subsiste latentemente como algo que apreende a realidade de maneira profunda.

Quando Hegel fala em obras  de arte faz uso de um conceito que tudo abrange (“obras de arte” é genérico). Para quem se preocupa, contudo, em analisar a arte de forma mais específica ou miúda é necessário fazer uma escolha, isto é, tomar uma obra e estudá-la. A própria escolha, sem dúvida, denota uma determinada visão de mundo, uma determinada condição,  muitas vezes acidental, sob a qual se vive. A escolha específica, contudo, tem de ser feita e por ela se é julgado como crítico. Porém, cinicamente, e no bom sentido do termo, o crítico pode solenemente ignorar o julgamento que louva a necessidade de estudar todas as obras — se considerar que os diferentes escritores, ao longo do tempo, não têm mesmo algo muito novo a dizer. Qual o relato que não repete o que já se contou em outra época, em outra literatura, sob outra forma? Qual a necessidade de comparar o autor A  com o autor B se suas aflições são as mesmas? Provar que o tempo não muda o homem? Compreender Parmênides?

Voltemos novamente a Billy Budd, de Herman Melville [a partir deste ponto, contarei a história de Budd. Não leia este parágrafo se não quiser conhecer a trama], novela publicada postumamente (em 1924, depois que foi encontrado seu manuscrito em uma peça do mobiliário do escritor, o qual morrera em 1891), arranjada em 30 capítulos e que narra a trajetória de um marinheiro inglês que acaba executado, depois de julgado pelo Capitão Vere, por matar involuntariamente um oficial de nome Claggart a bordo de um navio de guerra. A condenação é causada por um golpe (soco) que o protagonista desfere em seu superior depois de este o ter acusado injustamente de organizar um motim.  A agressão física aqui pode funcionar não só como uma espécie de reação do protagonista a uma acusação injusta, mas também como uma ação que levará a um desfecho trágico. No primeiro caso, ficamos mais presos à superficialidade do que é narrado; no segundo, temos uma preocupação de caráter mais crítico. Billy, o agressor, atinge Claggart, que morre. Acima de ambos está o Capitão Vere [percebam a alusão à verdade, ao verídico, presente no próprio nome. A alusão de Melville é irônica], que julgará, à la Creonte, o ato intempestivo do marinheiro.

Para além da crítica feita por um escritor norte-americano ao sistema legal britânico (uma espécie de intromissão do colonizado no mundo do colonizador, com direito à paródia já na escolha do nome do capitão do navio, retirado de um poema xenófobo do inglês Andrew Marvell), Herman Melville, em Billy Budd, parece denotar – assim como o fizera ao escolher um advogado para narrar a história de Bartleby – algum interesse pela justiça dos homens, pelo próprio Direito. Mas essa é outra história.

  

Bibliografia 

Hegel, G. W. F.  Curso de Estética. O belo na arte (Martins Fontes).

Kierkegaard, Søren. The concept of anxiety  (Princeton).

Melville, Herman. Complete works. (The Library of America).

Melo e Souza, Ronaldes de. Atualidade da tragédia grega. In: Filosofia e literatura: o trágico (Zahar).

Steiner, George. The death of tragedy (Oxford).


João Cabral: entre a filosofia e a poesia

12/04/2009

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Nota: Este texto é um fragmento de um ensaio de maior fôlego sobre a obra do poeta pernambucano. Saudações especiais a todos os alunos que, como eu, um dia aprenderam [verbo intransitivo] no próprio Recife, terra de ótimos professores. Alô, professora Bianca!

Tanto a literatura quanto a filosofia, como discursos distintos e, mais do que isso, classificados diferentemente, não deixam de ser modos pelos quais o homem interpreta (1) o mundo [objeto externo, dado a priori], (2) a si próprio [a subjetividade] e (3) a relação que trava com o mundo [integração ética do sujeito no mundo]. Não cabe verificar, na extensão de um texto introdutório como este, a proeminência daquilo que chamamos de discurso poético e daquilo que chamamos de discurso filosófico na compreensão do que seja o simples estar no mundo (aspecto ôntico), ou melhor, da compreensão de um dever-ser (aspecto deôntico) que necessariamente reflita uma ontologia ainda (ou para sempre) desconhecida. Basta dizer, por enquanto, que a ética é algo que também se constrói.

(…)

É de se argumentar que verdadeiro poeta seria aquele que de fato vive na vida (a redundância é proposital) aquilo que diz na poesia, mas tal raciocínio, de fundo quem sabe nietzschiano e de louvor à arte como atividade intransitiva e iluminadora, não é acatado com tanta facilidade em um mundo mais filisteu do que exatamente dado à reflexão. (A intransitividade da arte, contudo, convoca uma espécie de pensamento teórico já um pouco esmaecido, e mais apropriado talvez, em seu ponto máximo, à escola francesa dos anos 70. Não é dessa intransitividade que se fala. Fala-se, sim, em rigor artístico, em reconhecer a arte que de fato busca reocupar de maneira muito própria, mas em diálogo constante com outras disciplinas, o espaço há muito perdido e ocupado de maneira obtusa pela publicidade e discursos afins, todos voltados à oligofrenia  geral e irrestrita, essa sim intransitiva). Fiquemos, então — pelo menos por enquanto, como maneira de facilitar o trabalho e também de aproveitar o que a análise imanente trouxe de bom aos estudos de literatura — na superfície lisa e rasa do texto em si, mais acomodado à forma do que ao próprio conteúdo.

(…)

Um dos recursos mais empregados pelo poeta João Cabral de Melo Neto é a superposição de metáforas. Pode parecer ao leitor mais inexperiente que as metáforas tenham mero caráter substitutivo, mas isso de fato não ocorre com o poeta pernambucano, que consegue carregar de sentido as imagens expressas, em geral, pelos substantivos concretos escolhidos. Do rio, passamos ao cão, do cão ao homem, numa fluidez impressionante e que é ela própria um substrato metafórico daquilo que a palavra pode e consegue fazer para dar conta do estar no mundo. Obviamente, na estrutura tripartite imposta pela metáfora, encontramos, como em qualquer obra de arte digna do nome, uma espécie de certeza maior do que a nos proporciona a racionalidade. Em outras palavras: o jogo metafórico na poesia  não só aponta para a coisa representada, mas também para a própria coisa representante, ambas jungidas em um terceiro ponto, ponto de fuga, ponto talvez inalcançável à razão pura e simples, porque ponto em que há uma certeza que se poderia dizer absoluta, porque criada, porque provocada intencionalmente. Em linguagem esquemática: A, que representa B, não é A nem B, é C, mas um C sintético e absolutamente imbuído de raison d’être.

Idealmente, então, toda poesia deveria gozar dessa prerrogativa. Na prática, contudo, nem todos os poetas conseguem alcançar esse intento. Como o âmbito deste texto introdutório à obra de João Cabral é mesmo pequeno, torna-se aceitável a redução do objeto a uns poucos poemas seus [Nota: aqui no site, somente um poema é analisado]. Passemos a eles, apresentando, primeiramente, a Psicologia da composição, poema auto-explicativo, poema de tese (no bom sentido, isto é,  poema de tese no sentido metalingüístico, e não no abominável sentido vulgar de “tese político-panfletária”) :

 

Psicologia da composição (VI)

Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;
 
Não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;
 
mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola,
 
aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

 

Fazem-se duas observações primeiras: a inegável recusa ao acaso e a forte convicção horaciana de que poesia implica limar o verso. Ao lixo, portanto, com a poesia fácil e automática. Ao contrário do que poderia pensar o leitor que vê na poesia uma escada para a sustentação de uma determinada tese política, este poema tem como influenciar a sua atitude, mas pelo viés ético. Perguntar-se-ia talvez o leitor: “Como pode essa forma proveniente da labuta poética afetar eticamente aquele que a lê?” ou “Pode essa mesma forma indicar que aquele que a criou vive efetivamente a moral ali pregada?”. Digo-lhe: — Não há garantias, prezado leitor. Talvez nenhuma resposta positiva possa ser dada, pois poesia e vida já não se misturam, afundadas que estão sob a gigantesca montanha de escombros de um mundo em que política e publicidade atuam como verdadeiras âncoras de um atraso inominável. Conferir se de fato este ou aquele poeta ou leitor está de acordo com a cantada perfeição da forma é secundário, mas essa perfeição não deixa de suscitar interesse, pois aponta para a possibilidade de que haja uma trajetória a ser percorrida, de que o que está não necessariamente é. A recusa ao “lance santo” (versos 5 e 6) é também de fundamental importância, pois elimina a redenção pela fé, além de reduzi-la ao ponto zero de simples mito (no mau sentido). A religião, ou melhor no caso de Cabral, o catolicismo, já não ajuda o homem a dar conta de sua miséria; a ladainha dominical é mesmo simples ladainha, discurso decorado e tosco, discurso-casca, discurso-película, proferido em geral por quem mais não faz do que reproduzir por reproduzir, como fazem os psitacídeos.

Sabe-se que toda a obra de João Cabral está impregnada de uma característica que lhe é muito peculiar: o extremo cuidado com a forma, com a palavra medida e certa, com a negação da emoção fácil e de incentivos imediatos de ordem política. É como se a poesia devesse questionar-se a si própria, perguntando a que veio. Nesse quesito, Cabral é único; sua obra talvez seja mesmo a mais enxuta dos poetas brasileiros. Cabe perguntar se essa organização extremada, se essa quase obsessão com a forma indica alguma intenção de cunho filosófico.

Um dos argumentos do grande crítico paraense Benedito Nunes (no texto João Cabral: filosofia e poesia) é o de que as relações entre poesia e filosofia são sempre transversais; nunca diretas. Com a poesia crítica de João Cabral de Melo Neto, contrária a todo êxtase, a toda inspiração e ao irracional, tais relações seriam ainda mais transversais, ou seja, os pontos de contato seriam ainda mais esparsos, mais espaçados. Segundo tal perspectiva, o componente epistemológico da filosofia só muito remotamente interessaria ao componente criativo da poesia, e vice-versa. Mas tal separação, para além do que indica Benedito Nunes, talvez seja apenas rigorosamente formal: tanto a poesia quanto a filosofia perscrutam o mundo, o homem e a relação entre ambos.

(…)


Música: Escute aqui!

12/04/2009

Há música neste site. Basta clicar no link abaixo ou na aba “Escute aqui!”, no topo da página. Começamos com Ian Anderson (Life is a long song)  e prosseguimos com Elis Regina/Tom Jobim (Águas de março).

http://viniciusfigueira.wordpress.com/escute-aqui/


Do Coração das trevas à vida na cidade (uma tradução de Conrad)

15/03/2009

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Aí abaixo está  minha tradução de um trecho do famoso “Heart of Darkness”, de Joseph Conrad, publicado pela primeira vez em 1902. Trata-se, penso eu, de uma boa leitura para o brasileiro urbano medianamente instruído que, ao voltar de suas férias, logo se depara com uma horda de nobres businessmen e inteligentíssimos comunicadores que lhe indicam o caminho “do sucesso”, o caminho “dos vencedores”. Enjoy it, Mr. Gehringer!

 

“Lá estava eu novamente na cidade sepulcral, ressentindo-me de ver as pessoas correndo apressadas pela rua para surrupiar algum dinheiro umas das outras, para devorar sua comida infame, para engolir sua cerveja insalubre, para sonhar seus ridículos e insignificantes sonhos. Elas invadiam meus pensamentos. Eram como intrusos cujo conhecimento da vida sempre me fora uma farsa irritante, porque eu tinha certeza absoluta de que não conheciam o que eu conhecia. Sua conduta, que era simplesmente a conduta de indivíduos comuns que tocavam sua vida sob a garantia de uma perfeita segurança, me era ofensiva como é o pavoneamento exagerado dos tolos diante de um perigo que são incapazes de compreender. Eu não tinha nenhum desejo de iluminar-lhes o caminho; tinha mesmo era alguma dificuldade em abster-me de rir de suas caras, repletas de uma presunção imbecil.”

 

 Original de Conrad (Penguin, 1994, p. 102)

“I found myself back in the sephulchral city resenting the sight of people hurrying through the street to filch a little money from each other, to devour their infamous cookery, to gulp their unwholesome beer, to dream their insignificant and silly dreams. They trespassed upon my thoughts. They were intruders whose knowledge of life was to me an irritating pretence, because I felt so sure they could not possibly know the things I knew. Their bearing, which was simply the bearing of commonplace individuals going about their business in assurance of perfect safety, was offensive to me like the outrageous flauntings of folly in the face of a danger it is unable to comprehend. I had no particular desire to enlighten them, but I had some difficulty in restraining myself from laughing in their faces, so full of stupid importance”.


Duas certas (e errôneas) traduções de Frye

28/02/2009

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Traduzir é tarefa ingrata. O tradutor está, queira-se ou não, sempre sob certo julgamento. Por mais bem feita que seja a tradução, um só erro basta para que críticos mais agudos reclamem muito daquilo que se traduziu e desconsiderem o restante do trabalho. Um dia desses, deparei-me com uma tradução de Northrop Frye, feita pelo professor Flávio Aguiar. Como eu conhecia o original de Frye e, mais do que isso, o havia traduzido em trabalho de conclusão de curso na Ufrgs no ano de 1995, não pude deixar de ficar curioso em cotejar o que traduzira com o  que  Aguiar agora apresentava (a primeira edição do trabalho de tradução do professor é de 2004). É certo que meu  texto, uma simples  tentativa de aluno de graduação, ou está bastante empoeirado em alguma estante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul ou virou folha de rascunho para análises geniais e pós-modernas de professoras feministas, tamanho o interesse que o assunto traduzido desperta na nobre comunidade literária gaúcha. É certo também que meu trabalho, assim como o do professor,  não está isento de erros.

O texto de que falo chama-se “The Great Code – The Bible and Literature”, de Northrop Frye  (Harcourt B. Jovanovich, 1982) . A tradução brasileira aqui apresentada é de Flávio Aguiar (Código dos códigos. A Bíblia e a literatura. Boitempo, 2ed., 2006). Reproduzo, a seguir, apenas o primeiro parágrafo do texto, por um motivo especial: a primeira oração da tradução de Aguiar (sublinhada, abaixo) é deveras problemática. Descuido ou problema de revisão, o fato é que simplesmente não podemos compreendê-la. Em se tratando de um livro sério como este, dar início ao texto com uma frase truncada e carente de sentido acaba por ser um convite a não ler.

Mas passemos ao objeto desta mensagem que é , afinal, cotejar traduções… Como não quero aqui fazer o papel de quem apenas atira pedras na vidraça alheia, apresento também a minha velha tradução da década de 1990. Prestem atenção às divergências dos tradutores e, principalmente, aos erros que ambos cometem. Eu mesmo, hoje, quebraria minha própria vidraça em vários pontos.

Abaixo, tem-se o primeiro parágrafo do texto de Frye, dividido em seis partes e de acordo com o seguinte esquema gráfico:

Texto em preto: Original de Frye

Texto em azul: Tradução de Flávio Aguiar (2004)

Texto em vermelho: Tradução de Vinicius Figueira  (1995)

Texto em verde: não está aqui, mas um dia virá pela mão de um bom e abnegado cristão ou  ateu, e será melhor do que os dois anteriores.

 

Northrop Frye: Capítulo de abertura do livro The Great Code e suas traduções brasileiras

 Frye  1. A sacred book is normally written with at least the concentration of poetry, so that, like poetry, it is closely involved with the conditions of its language.

 Aguiar  1. Um livro sagrado é normalmente se escrito com, ao menos, a concentração da poesia; como a poesia, portanto, ele está intimamente relacionado com as condições de sua linguagem.

 Figueira  1. Um livro sagrado é normalmente escrito, pelo menos, com a mesma concentração dedicada à poesia, de modo que, como a poesia, ele está intimamente ligado às peculiaridades de sua língua.

 

2. The Koran, for instance, is so interwoven with the special characteristics of the Arabic language that in practice Arabic has had to go everywhere the Islamic religion has gone.

 2. O Corão, por exemplo, está tão entrelaçado com as características próprias da linguagem árabe que, na prática, o árabe teve de acompanhar a religião islâmica onde quer que ela fosse. 

2. O Alcorão, por exemplo, está tão atrelado às características especiais da língua árabe que esta tem de acompanhar, na prática, a religião islâmica onde quer que ela vá.

 

3. Jewish commentary and scholarship, whether Talmudic or Kabbalistic in direction, have always, inevitably, dealt with the purely linguistic features of the Hebrew text of the Old Testament.

 3. Os eruditos e comentadores judaicos, de sentido talmúdico ou de sentido cabalístico, tiveram de lidar inevitavelmente e sempre com as feições puramente lingüísticas do texto em hebraico que é o Antigo Testamento. 

3. Os tratados e a erudição judaicos, sejam de orientação talmúdica ou cabalística, sempre ocupam-se, inevitavelmente, das características puramente lingüísticas do texto hebraico do Velho Testamento.

 

4. In contrast, while Christian scholarship is naturally no less aware of the importance of language, Christianity as a religion has been from the beginning dependent on translation.

 4. Entretanto, embora a erudição cristã não seja menos consciente da importância da linguagem, enquanto religião o cristianismo sempre dependeu mais da tradução.

 4. De maneira contrastiva, embora a erudição cristã naturalmente não seja menos ciente da importância da língua, o cristianismo, enquanto religião, desde o começo depende da tradução.

 

5. The New Testament was written in a koine Greek unlikely to have been the native language of its authors, and, whatever the degree of familiarity of those authors with Hebrew, they tended to make more use of the Septuagint Greek translation in referring to the Old Testament.

 5. O Novo Testamento foi escrito num grego koine, que parecia não ser a língua nativa dos seus autores. Qualquer que fosse a familiaridade desses autores com o hebraico, eles preferiam usar em suas referências ao Antigo Testamento a tradução em grego da Septuaginta.

 5. O Novo Testamento foi escrito em grego koine, que não foi, provavelmente, a língua materna de seus autores, e, qualquer que tenha sido o grau de familiaridade desses autores com o hebraico, eles tiveram a tendência de fazer maior uso da Vulgata dos Setenta ou Bíblia dos Septuagenta no que se refere ao Velho Testamento.

 

6. The Jews, on the evidence of the Letter of Aristeas, at first greeted the Septuagint with great en­thusiasm, but the use made of it by Christianity tended to push them back to a renewed emphasis on the Hebrew original.

 6. Baseados na carta de Aristeu, os judeus num primeiro momento recebeream (sic) a Septuaginta com entusiasmo. Mas o uso desta pelo cristianismo levou-os a voltar-se novamente para os originais em hebraico.

 6. Os judeus, baseados na evidência da carta de Aristeas, inicialmente acolheram a Vulgata dos Setenta ou Bíblia dos Septuagenta com grande entusiasmo, mas o uso desta pelo cristianismo fez com que eles (os judeus) se voltassem, com ênfase renovada, ao original hebraico.


A história dos idiotas e os idiotas da História

24/01/2009

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Estive pensando, de maneira simplificada, mas não simplória, sobre a chamada civilização ocidental e seus rebentos atuais, classificando-os, grosso modo, em duas grandes categorias: a dos metafísicos e a dos revolucionários. Os primeiros insistem em divagar sobre a origem, sobre a ontologia de tudo e de todos, perdendo-se, não raro, em especulações vãs e muitas vezes tolas – em uma vida de pouca ação; os segundos, ao contrário, passam por cima dessa ontologia, apesar de em certa medida reconhecê-la, optando, contudo, pela imanência, pela “análise profunda” das condições sociais e históricas sob as quais vivemos, satisfazendo-se, também não raro, mais com o discurso revolucionário do que com a ação.

À categoria dos metafísicos chamarei de “idiotas do além”; à categoria dos revolucionários, de “idiotas do aquém”. É claro que o uso do termo “idiota” é ofensivo (e histriônico). Trata-se de um recurso retórico que fará com que o leitor, com sorte, chegue ao fim do texto, com aquela necessidade de certificar-se de que se enquadra ou não, de acordo com seu nível de masoquismo, em uma das categorias criadas. Caso não se enquadre, achará que o autor do artigo não pensou em uma terceira ou quarta categorias possíveis (sendo esta terceira categoria, quem sabe, uma síntese das anteriores; a quarta, uma categoria dedicada àqueles que somente escrevem e nada fazem, como é o caso do próprio autor). As possibilidades de reação do leitor são várias, mas minha intenção é tão somente a de mostrar, com palavras, que a vida que levamos não passa, em geral, de palavras e pouca ação, desde que tenhamos aquele conforto material de que já falava Agostinho (vejam bem: retiro o termo “Santo” para não ferir os revolucionários. Mas ao dizer que o retiro, escrevo-o, e, então, adulo os metafísicos. Sim, eu estudei dialética).

Os idiotas do além, ou metafísicos, não se importam com o cotidiano, com coisas frívolas como salários e trabalho (há ironia aqui na palavra “frívolas”, mas resolvi não marcá-la com itálico ou aspas. Quem percebe a ironia, percebe; quem não percebe, não percebe. A burrice é ampla e irrestrita. A inteligência, também).  Voltando: os idiotas do além, exceção feita talvez aos franciscanos, possuem outra característica: não abdicam jamais de seu conforto. No calor: ar-condicionado; No frio: lareira; Fome: carne; Sede: vinho. Tudo, em geral, com a bênção de Cristo [sotaque de padre italiano em "Cristo", please]. A paz de espírito desses senhores implica, como a de todos os homens, bem-estar estômaco-intestinal (ai!), ainda que os mais abnegados sejam mais parcimoniosos.

Algo que os metafísicos, ou idiotas do além, conhecem mas fazem questão de ignorar é a História (com H maiúsculo, indicando aqui a História da humanidade e também a tentativa de recontá-la, a historiografia). Poder-se-ia dizer que malgrado seu, isto é, deles, esses senhores têm, contudo, uma História, pois não há dúvida de que ela exista, independentemente de seu (dela) reconhecimento. Recapitulando: os metafísicos têm mesmo uma história, que um autor revolucionário poderia chamar de “História dos idiotas do além” ou, mais simplificadamente, “História dos idiotas”. Para ler sobre ela, consulte, principalmente, livros cuja temática seja religião, mitologia, filosofia e liberalismo econômico, não necessariamente nessa ordem.

Os idiotas do aquém, ou revolucionários, pouco ligam ao lado de lá, isto é, ao mundo metafísico. Metafísica seria imaginação, ficção, mito. Por outro lado, temas como “salário” e “emprego” lhes são deveras importantes e atuam, em sua (a deles) imanente lógica, da mesma forma que o além atua na mente dos metafísicos. Ou seja: mudam-se os deuses, mas as moscas são as mesmas. Em geral, as moscas do aquém, digo, os revolucionários, costumam uniformizar a realidade (No Brasil pré-Lula presidente, por exemplo, era comum que nos círculos revolucionários [na verdade "retângulos revolucionários", pois as mesas de bar são em geral retangulares] os idiotas do aquém chamassem uns aos outros de “companheiro”. Todos eram companheiros de todos. A fraternidade era universal, irmãos [ler com sotaque de padre italiano esta última frase]). Essa uniformização visa, principalmente, à criação de um substrato humano comum, a quem os santos revolucionários sentem-se no dever de abrir os olhos, ou seja, mostrar o caminho, a verdade e a vida [ler esses três últimos termos também com sotaque de padre italiano]. Converse com o pessoal do PSOL, PSTU e do antigo PT para entender o espírito da coisa. Outra marca dos idiotas do aquém, ou revolucionários, é o ressentimento (ver Nietzsche, o filósofo das multidões). Ressentem-se, primordialmente, do conforto material de uns poucos, da “burguesia”. A inveja desse conforto material quase sempre vem à tona em discursos fortes e professorais acompanhados de dois tiques nervosos opostos e bem humanos: (1) uma certa baba a correr pelos cantos da boca, aliviada a seguir por (2) um olhar carinhoso e condescendente a quem desconheça o outubro de 1917. Curiosamente, contudo, quando alcançam o poder,  os babões carinhosos repetem exatamente o comportamento daqueles que antes criticavam, ou seja, passam a achar que têm pouco, que merecem mais, que precisam de mais, mais carros, mais e melhores casas, mais roupas, mais comida - tudo para guiar o povo pelo bom caminho, mentes privilegiadas que são.

Os revolucionários, ou idiotas do aquém, desprezam, portanto, o que não existe. Assim, para eles (exceção feita aos padres marxistas),  o mundo metafísico é só imaginação, e a religião, ópio (se fosse ópio seria bom, mas os revolucionários não sabem rir de si mesmos). Para eles, só vale aquilo que se deu na História, no tempo. Como de fato não sabem se há ou não há algo no além-túmulo, eles seriam mais honestos, penso eu,  se reconhecessem esse não-saber (algo que só fazem em momentos mais difíceis, como os da morte de um familiar ou da busca de votos para cargos eletivos). Sendo nossos revolucionários [ironia em "nossos"] partidários implacáveis da História, ao ponto de nutrirem uma paixão cega e idiota por ela, poderíamos dizer que são “Idiotas da História”.

Assim, chego aonde queria, que era tão-somente uma justificativa para a frase que dá título a este artigo, frase-síntese (que carrego comigo há algum tempo) daquilo que vejo com constância no lugar em que vivo. Pelos últimos epítetos conferidos às duas categorias que criei, ambos em negrito aí acima, obtenho, então, “A história dos idiotas e os idiotas da História” - sem ofensa pessoal, ressalte-se, a metafísicos e a revolucionários. Respeitosamente, penso ter contribuído, aqui, para juntar o joio ao trigo, se é que me entendem. Ofereço-vos, para  encerrar, uma  frase de Mark Twain (que cito de memória e com direito a erros): “Quando sou apresentado a alguém, pouco me importa sua origem, cor ou classe social. Basta-me saber que é um ser humano: nada pode ser pior.”


O belo na arte

26/12/2008

belo-na-arte

A incrível e meritória (?) arte de escrever sobre o que não se sabe: eis o que é a filosofia. Uma tentativa de estabelecer o necessário, o almejado e tão-somente necessário, como possibilidade de comprovação de verdades, que não são mais do que ínfimas. A escrita em ziguezague de Hegel e a escrita em espiral de Heidegger tateiam pela escuridão de nossa humana incerteza  e julgam trazer-nos certa luz. Ocorre que a luz é, apesar do esforço, bruxuleante: não aquece, nem ilumina (como diria o Carlos de Itabira). Com isso, ou por isso, a vida apresentada como está, seja ela a vida natural e assistemática, seja ela a vida sistemática do acorda-come-trabalha-dorme (ou até mesmo a vida sex-sleep-eat-drink-dream de rei escarlate), acaba sendo apenas um fim em si mesmo, instaurando sobre nossas cabeças, como a espada da lenda, a necessidade/inexorabilidade de uma só coisa insofismável: nossa estupidez.

Texto escrito em 15/5/2008

Da essência dos parafusos

26/12/2008

parafuso

O mundo eminentemente prático e a produção de objetos que atendem àquilo que é materialmente necessário à sobrevivência da humanidade fizeram-me pensar na felicidade de um grande fabricante de parafusos. Não chego a ter certeza, mas presumo que mesmo o melhor dos grandes fabricantes de parafusos pouco saiba da essência daquilo que fabrica – sabe, no máximo, do material de que é feito o parafuso e, então, entre outros procedimentos, vai ao “mercado” e compra em grande quantidade a matéria-prima para produzi-lo, como um padeiro que compra farinha.

      Para além da simples compra do material necessário à fabricação do parafuso e de seu nobre processo de produção, há, todavia, coisa mais profunda: o fabricante de parafusos, ao contrário de poetas e outras bestas artísticas inseguras, sente-se satisfeito em produzir algo que tem utilidade imediata na realidade concreta. Produz, aliás, milhões de parafusos justamente por comprazer-se em arrecadar milhões de reais em troca de seu “empreendimento vencedor“, concretamente milionário, já descontados os salários miseráveis de seus subalternos, o trabalho voluntário de sua esposa na instituição do câncer infantil e os impostos que paga a um irmão que sabe lucrar tão bem quanto ele, o governo de plantão. Ao final do mês, contabilizados os lucros, o fabricante de parafusos está feliz. No final de semana, sente-se útil à humanidade porque vai a um shopping-center e vislumbra, na coluna de ferro que sustenta o teto, o parafuso que fabrica; porque vai à casa de um amigo e vê o mesmo parafuso na rústica e moderna caçarola em que lhe preparam um linguado à la belle meunière; e porque mesmo a portinhola que guarda o rolo de papel higiênico no banheiro de quarenta metros quadrados de sua residência contém parafuso idêntico. Trata-se, enfim, de um homem satisfeito por sua ubiqüidade, de um homem que gargalha diante de fáusticos programas televisivos e que fala de si com toda a propriedade, sem dar espaço a questionamentos metafísicos sobre sua tão bem formada personalidade, forjada naquela dureza imbatível do papel-moeda.

       Em alguns lugares do planeta e principalmente em certos estados meridionais iluminados, esses homens úteis e satisfeitos estão na vanguarda, mas não fabricam somente parafusos… Fabricam também coisas deveras mais imprescindíveis, como talheres e espumantes, sapatos e refrigerantes, sabonetes e sorvetes, eixos e chassis, treinadores de futebol e modelos magérrimas. No final do dia, quando esses gigantes risonhos da sabedoria prática chegam em casa, o portão-de-ferro automático de seis metros de comprimento se lhes abre, dando espaço para que sua comunhão com o mundo possa, finalmente, fazer-se completa: o beijo rápido na esposa, o sorriso dos filhos e o delírio saltitante do cachorro são indícios claríssimos disso. Assim como o são, é claro, os olhares coniventes e obtusos dos quatro fortíssimos seguranças importados que mandou trazer há muito tempo  da África.

 Texto escrito em 11/3/2008

Patacoadas de uma república de bananas

26/12/2008

gabeira

 

Chamemos a atenção, em primeiro lugar, para a primeira palavra do título deste artiguinho. “Patacoada” é coisa de patacos, de indivíduos idiotas, estúpidos, parvos. Em segundo lugar, tem-se a expressão “república de bananas”,  que aqui não faz menção às republiquetas da América Central, famosas pela exportação do fruto amarelo e oblongo, mas sim reitera, por meio de um sentido secundário do termo “banana”, o caráter pataco e idiota de todos nós, brasileiros. O artiguinho não pode, também, começar sem a análise da foto que o acompanha. Nela, um dos pouquíssimos homens sérios da política brasileira, apesar da delicadeza contumaz de sua figura pouco ortodoxa, afigura-se, repentinamente, como um frango de rinha que investe contra os sabujos de um poder de porcos. É realmente o fim de uma era e o prenúncio de outra. Passamos da tentativa de democracia à democracia ditatorial manu militari. De um lado, o todo-poderoso homem de calhas arma suas tramóias para tudo submeter perdoem-me a redundância  ao que vier a calhar (como de resto sempre fizeram aqueles que detiveram o “puder” neste país de papalvos), adotando uma medida de exceção que a todos impinge um calar obsequioso; de outro, os supostos paladinos da justiça, com seus cartazes estudantis e gritos de luta, fazendo força para impedir a mudez que o já citado calheiro urubu alagoano ousara decretar assim tão rapidamente paladinos que não passam, contudo, de meros bobos da corte, muito pouco distintos, nas circunstâncias atuais, daquelas lesmas e bernes outrora quietos da Areninha de hoje, que, antigamente, de maneira muito satisfeita acompanhavam com muito gosto tanques e generais fãs de cavalos. Nossa oposição é, então, esta: Lucianas e Agripinos de modo que estamos mesmo mal-arranjados. Enquanto isso, supremos e doutos senhores, liderados por uma graciosa e helênica senhora , todos eles bem confortáveis em poltronas pequenininhas e espartanas, deliberam se o que ocorre está certo ou errado, prontos a decidirem-se, de acordo com a lei mais conveniente para o momento (como é comum neste país tão sério), pela liminar também mais conveniente e que, é claro, dê mais ibope na chamada do Jornal Nacional.  O descerebrado molusco mor não poderia estar, neste momento, viajante que é,  em lugar mais adequado, no reino podre da Dinamarca, de onde apenas requisita o direito a estar bem-informado. Cassado ou não, o ex-homem collorido e calheiro, hoje homem do partido da estrela, aliás, do partido das estrelas, dos detentores eternos da verdade, com certeza não nos causará efeito que não um breve vômito metafórico que todo dia expeliremos já ao acordar. Tenhamos calma: o mau cheiro que viermos a sentir será apenas ilusório e também metafórico – será logo tornado inodoro e saneado, pois no Congresso, no Planalto e no Supremo vai tudo muito bem.

Texto escrito em 12/9/2007

Outra pequeníssima tradução de Melville

26/12/2008

md

[Original]

Etymology (supplied by a late consumptive usher to a grammar school)

The pale Usher threadbare in coat, heart, body, and brain; I see him now. He was ever dusting his old lexicons and grammars (…). He loved to dust his old grammars; it somehow mildly reminded of his mortality.

[Tradução]

Etimologia (fornecida por um professor-assistente tuberculoso defunto a uma escola de nível médio)

Pálido professor-assistente  de casaco, coração, corpo e cérebro esfarrapados; Vejo-o agora.  Ele estava sempre espanando seus dicionários e gramáticas (…). Adorava espanar suas velhas gramáticas, o que de certa forma lhe fazia lembrar de sua condição de mortal.

 Melville,  Moby-Dick. Preâmbulo.

 Escrito em 30/6/2007

Sobre abelhas e homens

26/12/2008

lordv

 

Um famoso pensador ocidental certa vez ousou comparar abelhas e homens por aquilo que ambos fazem ao construir suas casas (ou favos). A diferença, dizia-nos o astuto pensador, era a de que mesmo o pior dos arquitetos humanos (ao contrário da melhor das abelhas) tinha a capacidade de antever o resultado de sua obra, de antecipar, pela reflexão, a finalidade do que construía — o pobre inseto agiria apenas por instinto. Eu não faria tal afirmação sem antes pensar minha condição humana, demasiadamente humana. É irrefutável que o celebrado pensador, ao falar-nos da antecipação dos fatos pela consciência humana, institui um dos pilares de sua doutrina: o tempo, o antes e o depois, tão importantes ao movimento, à ação. É no tempo e pelo tempo que ele (o pensador) mediu a existência de tudo o que há, mas esqueceu-se, coitado, de que esse tempo também é apenas humano. À abelha pouco importa a capacidade antropológica de antecipação de fatos, pois ela, pelo menos aparentemente [risos de dúvida metódica], não dispõe das faculdades humanas voltadas à consciência temporal. Contudo, com certeza, dispõe de alguma faculdade outra que, de alguma forma, permite-lhe construir seu favo no tempo, no seu tempo, independentemente de percebê-lo ou não. Se é verdade que a abelha vive pouco menos de um mês humano, é também verdade que vive toda uma vida de abelha — e isso é o que de mais desesperador há para homens excessivamente humanos, pois a abelha o faz independentemente de o homem estar ou não aqui. Dizem nossos maravilhosos cientistas humanos que, em caso de guerra nuclear, não restarão mamíferos nem abelhas, mas apenas outros insetos: as baratas. Extintos os nobres mamíferos que tudo percebem e entendem e os laboriosos insetos, as imundas baratas (que na verdade não sabem de sua imundície e devem mesmo achar-se bem limpinhas) continuarão a existir. Essa possibilidade, ainda que desvelada pelo limitado engenho humano, já é por si só uma prova metonímica contundente de que o andamento do universo independe da ação antropocêntrica. 

O homem, todavia, graças ao amor por seu umbigo, tende à sistematização de tudo o que se lhe apresenta, julgando todas as coisas pelo seu próprio olhar, insistindo que o mundo está à sua mercê. Alguns humanos, mais chegados no paroxismo desse procedimento, investem-se da qualidade de governantes e projetam sobre seus menos iguais (Orwell) as normas adequadas de conduta social, moral e econômica. No sistema capitalista — que até agora tem-se provado mais resistente do que gostariam sinceríssimos Fidéis, Chês e Maos —, a exploração do homem pelo homem é uma constante. A sofisticação do processo permite agora que os mais explorados sintam-se felizes por sê-lo: basta-lhes comprar um home-theater nas casas Bahia que a emulação do hábito dos mais ricos garante a manutenção do sistema; a aquisição do produto passou a ser mais importante do que a própria existência. No sistema socialista — tido como a forma latente do comunismo, isto é, da redenção do homem aqui na Terra —, se a exploração do homem pelo homem não existe (como só ousam afirmar sinceríssimos Fidéis, Chês e Maos), existem, inegavelmente, homens mais iguais (Orwell, de novo), que dispõem de aviões, carros e outros  confortos que os comedores de pizzas de açúcar, carentes de sabonete, não dispõem (essas vantagens devem ser parte do processo de transição ao comunismo, presumo eu). 

Diante do ritmo lento da evolução possibilitada pelos sistemas político-econômicos que conhecemos, minha “teoria” (as aspas são auto-irônicas) da dispensabilidade do homem para o andamento do universo deveria ser levada mais a sério. Não que eu esteja aqui a defender o aniquilamento do homem pela guerra, pois sou contra crueldades aos outros (e também contra os suicídios). Sou apenas a favor da diminuição planejada da população. Sei que, indiferentemente do número de pessoas, o processo de exploração se mantém, e que, por isso, diria a esquerda, não se justificaria a redução da população.  Mas percebam a sutileza: se o número de pessoas é indiferente, por que não ficarmos com poucas pessoas em vez de muitas? Por que produzir 100 pares de sapatos em vez de produzir somente 1? Produzindo apenas um par de sapatos, o operário teria mais tempo (vejam bem, tempo, senhores marxistas de espírito atrofiado) para não trabalhar. Menos edifícios, menos carros, menos poluição, menos consciências a sofrer, por repetição, o que consciências anteriores (no tempo, portanto) já sofreram. Por que insistir no erro da produção pela produção? Seremos nós, por acaso, apenas abelhas?

Foto de Lord V: http://www.flickr.com/photos/lordv/173430032/
 Texto escrito em 11/4/2007

Antes e depois, sempre

26/12/2008

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É claro que sabemos tudo sobre o depois, e nada sobre o antes. Ali, no nada sobre o antes, construímos nossa filosofia. A consciência é dependente do tempo; o tempo, da consciência. Antes do homem, o que havia? E depois, o que haverá? Havia tempo antes de nossa consciência existir? Haverá tempo depois de ela acabar? Extinta nossa consciência, o mundo não se extingue. Quando morre alguém, o mundo permanece. Resta saber o que ocorrerá quando o nosso sol esgotar-se e, com ele, nós mesmos e nossas palavras. Quero dizer: todos nós e todas as nossas palavras.

Texto escrito em 15/01/2007

Uma tradução de Melville

26/12/2008

 

Melville

Melville

 Da série “Traduções prazerosas”: Trecho de carta de Melville a Hawthorne. O texto é de 1851. Em primeiro plano, o original (em preto) e, logo abaixo, minha tradução (em azul). A seguir, na cor verde e em frases numeradas, um comentário informal das escolhas formais deste tradutor para o primeiro período, e tão-somente para o primeiro período (se eu tivesse de apresentar as escolhas que fiz para todos os outros períodos, esta mensagem teria cinco páginas), do texto do mestre norte-americano.

 Original:

In a week or so, I go to New York, to bury myself in a third-story room, and work and slave on my “Whale” while it is driving through the press. That is the only way I can finish it now, – I am so pulled hither and thither by circumstances. The calm, the coolness, the silent grass-growing mood in which a man ought always to compose, – that, I fear, can seldom be mine. Dollars damn me; and the malicious Devil is forever grinning in upon me, holding the door ajar. My dear Sir, a presentiment is on me, – I shall at last be worn out and perish, like an old nutmeg-grater, grated to pieces by the constant attrition of the wood, that is, the nutmeg. What I feel most moved to write, that is banned, – it will not pay. Yet, altogether, write the other way I cannot. So the product is a final hash, and all my books are botches.

Tradução:

Em mais ou menos uma semana, vou para Nova York, para enterrar-me numa sala de um terceiro piso qualquer e trabalhar em meu ‘Whale’ [Moby-Dick] e a ele escravizar-me, tudo isso ao mesmo tempo em que o livro começará a ser impresso, em série. É essa agora a única maneira pela qual conseguirei terminá-lo – tenho sido demasiadamente jogado para um lado e para outro pelas circunstâncias.  Aquela calma, aquela tranqüilidade, aquele silencioso espírito de grama que cresce sob o qual deveríamos sempre escrever – isso tudo, temo eu, raramente possuirei. Os dólares são minha desgraça; e o Diabo, maligno, está sempre a me sorrir, mantendo a porta entreaberta. Tenho um pressentimento, meu caro senhor – esgotar-me-ei e sucumbirei como um velho ralador de noz-moscada, ralado pelo atrito constante da casca, ou melhor, do alimento. O que me sinto mais inclinado a escrever é precisamente o que se bane – não dará lucro. Porém, escrever de outro modo, com certeza, não sei. Assim, o produto final me sai confuso, e todos os meus livros são uma barafunda só.”

 

Comentário sobre o primeiro período:

 1. In a week or so, I go to New York, to bury myself in a third-story room, and work and slave on my “Whale” while it is driving through the press. 

1. Em mais ou menos uma semana, vou para Nova York, para enterrar-me numa sala de um terceiro piso qualquer e trabalhar em meu ‘Whale’ [Moby-Dick] e a ele escravizar-me, tudo isso ao mesmo tempo em que o livro começará a ser impresso, em série.

Comentário 1.1: A maior dificuldade aqui foi manter o tom sintético do inglês em “third-story room”, que em apenas três palavras expressa a idéia de que se trata de um prédio urbano, em certa oposição ao tom rural sob o qual Melville escrevia em sua casa de dois andares, em Arrowhead. O terceiro andar não só é o elemento urbano, mas o elemento extra e indesejado que faz com que o autor se sinta deslocado e contrariado por ter de sair de casa para finalizar o livro. Penso que meu acréscimo, feito pela palavra “qualquer”, dá o tom de desprezo à vida urbana, implícito no texto original, mas não necessariamente percebido pelo leitor brasileiro com facilidade (talvez nem o leitor de inglês o perceba);
 Comentário 1.2: A repetição da preposição “para” e da conjunção “para” em “para Nova York, para enterrar-me” é proposital e estilística: respeita o duplo “to” (preposição e conjunção) de que Melville fez uso em “to New York, to bury myself”;
 Comentário 1.3: O mesmo procedimento de repetição está em “and work and slave”, em que Melville repete a conjunção “and”, com nítida intenção de demonstrar cansaço e impaciência. Em “e trabalhar em meu ‘Whale’ [Moby-Dick] e a ele escravizar-me” eu mantenho o processo, mas com dificuldade, por causa da regência dos dois verbos portugueses em questão ( ”trabalhar” e “escravizar”. “Escravizar” exigiu a preposição “a”, que “trabalhar” não exige);
 Comentário 1.4:  Precisei esticar um pouco a última oração (“while it is driving through the press”), a fim de mostrar ao leitor brasileiro o processo de escrita de Moby-Dick, segundo o qual o autor se viu forçado a acabá-lo logo e à maneira folhetinesca (ainda preciso pesquisar mais sobre o caso);
 Comentário 1.5: “Whale” foi o nome que Moby-Dick recebeu em sua primeira edição. Meu recurso foi o de colocar entre colchetes o título usual, a fim de fazer com que o leitor brasileiro percebesse, sem esforço, de que livro se tratava. É claro que “Whale” (baleia) também dá a idéia de um trabalho gigantesco e monstruoso, mas isso se perdeu na tradução e na opção que fiz.
 Texto escrito em 17/11/2006
 

Sobre Heidegger e sua análise de Hölderlin, aplicada a mim mesmo sem intenção de eco ou rima

26/12/2008
Hölderlin

Hölderlin

 Meu tempo é o tempo do poeta. Mas o que é declarar isso de maneira tão abrupta sem dar maiores explicações ao leitor de hoje? A primeira dificuldade com que me deparo é de fundo cultural. Ter a coragem de dizer que meu tempo é o tempo do poeta é ter a coragem de correr o risco de ser de imediato ridicularizado. Mas por quê? E por quem? Respondo: Porque os tempos de hoje são tempos que transformaram poeta em sinônimo de palhaço no mau sentido do termo. E quem perpetrou tal transformação, poder-se-ia dizer, foi, praticamente, a humanidade como um todo. Assim ficamos: o poeta é quase um imbecil. Tal idéia reforça-se ainda mais pelo fato de que há poetas de fato imbecis e de que são esses que tomam o espaço naquilo que hoje em geral se considera o centro da vida: o mundo da vida diária orientada pelos meios de comunicação. Nesse campo, o da interação entre as pessoas, o da mídia, importa muito o que se diz mas só se esse dizer for causa de um efeito impactante. Mas impactante em que sentido? E impactante para quem? O impacto que recebo ao me inteirar das notícias diárias que me chegam, por exemplo, é um impacto de superfície, porque elas estão inseridas na temporalidade vulgar do dormir, acordar, ganhar dinheiro com o trabalho, almoçar, ganhar dinheiro com o trabalho, jantar e dormir… É a esse tempo que o poeta não pertence, porque ciente de que a vida humana é curta e de que, principalmente, sua própria vida é curta, não pode deixar de voltar seu interesse e seu trabalho – vejam bem, o poeta trabalha – para outra coisa que, temporalmente, é bem maior e se estende, até onde se pode perceber, à origem do que entendemos por civilização ocidental, perscrutando o que disseram os filósofos físicos gregos, por exemplo, e que, de lá, desloca-se até o futuro vindouro, o futuro de seu filho, mesmo que esse filho ainda não viva, de seus netos e bisnetos. Trata-se, como se vê, de um tempo mais amplo do que o da cotidianidade – um tempo mais amplo, por exemplo, do que o acompanhamento incessante daquilo que fazem no aqui e agora nossos políticos, tão em voga neste mês por causa das eleições. Para o poeta, se o tempo fosse um cachorro, os políticos não seriam mais do que as pulgas. A necessidade de transformar o mundo imediatamente, de transformar o Brasil imediatamente, de acreditar em um determinado projeto político e crer que a mudança será para o bem de todos é algo que se dá muito pelo caminho do esquecimento do esquecimento de que a vida é curta, de que os mais ou menos 80 anos de qualquer indivíduo não poderiam findar-se sem que ele experimentasse lembrar de ser ele mesmo por uns oito meses, por uns oito dias, por umas oito horas, imergindo um pouco no imponderável, no que não conhece. O caminho do esquecimento já está mais do que trilhado e seus resultados são estes que já temos diante de nós. Viver o turbilhão do cotidiano, viver eternamente preocupado em vencer, em melhorar o mundo, em fazer tudo pela humanidade tudo isso não é mais do que alienação, ainda que o senso comum julgue ser a mais profunda atuação. Ao poeta, esse viver é apenas esquecimento; é não lembrar-se de viver, é dizer não ao conhecimento de si mesmo e do mundo, é projetar no outro o próprio desespero de não se saber quem se é, ou, pior, é ainda não se saber mesmo quem se é. Ao ousar “exigir” de todos que voltem à vida, que lembrem-se de que o cotidiano é esquecimento, o poeta não quer a facilidade de viver de amores, de flores ou do ar, como em geral dele se pensa. O poeta vive do silêncio e pelo silêncio, mas não de um silêncio meditativo e vazio que tudo anula e provoca a ilusão de placidez. Não. Seu silêncio é outro, é um silêncio laborioso: vem do que viu, vem do que viveu em constante lembrar-se, vem dos mortos com quem compartilhou sua vida, vem, mais do que qualquer outra coisa, das entrelinhas do que leu em tudo o que já lhe disseram os livros, muito mais livres e vivos do que ele, os livros, ainda que bem vivo esteja.

Texto escrito em 20/10/2006

Inspirado em Pascal, Pensamentos 139 e 339

26/12/2008
Pascal

Pascal

 Contentar-se em fazer, fazer e fazer, em não silenciar, em jamais parar. É esse o espírito da materialidade rasteira que governa os espíritos de homens que apenas constroem com as mãos  e em última análise para o estômago  objetos bem palpáveis e úteis (nada mais do que palpáveis e úteis), como sapatos, vinhos, carne enlatada e óleo de soja. Tudo em nome do móvel da economia, algo que sobre mim provoca sono. Quando será que esses “empreendedores”, esses verdadeiros assistentes entusiasmados da vida embotada vão parar, um dia só, para pensar no que são, no que fazem, no que vieram fazer aqui neste mundo? Será que pensam que a vida está mesmo reduzida à produção pela produção? Será que pensam que o jogo e o divertimento de final de semana é suficiente para acalmar-lhes a obtusidade, quando tudo recomeça na segunda-feira? Será que sabem que o cérebro, além de suas funções orgânicas, abriga uma mente que, de modo necessário e irrevogável, vive do pensar?

Pensamento 139: “Quando me pus a considerar as diversas agitações dos homens e os perigos e castigos a que se expõem, originando tantas contendas, paixões e cometimentos audazes, muitas vezes funestos, descobri que a infelicidade dos homens vem de uma só coisa, que é não saberem ficar quietos dentro de um quarto. O homem que tem suficientes bens para viver, se soubesse ficar em casa com prazer, não sairia dela para ir ao mar ou para cercar uma cidade…” (Adaptação minha, a partir da edição de Os pensadores, 1973, e do link abaixo indicado). 

Pensamento 339: “Posso conceber um homem sem mãos, pés, cabeça…; mas não posso conceber o homem sem pensamento: seria pedra ou um animal.”

 Link (em inglês, e para desespero dos francófonos):

http://oregonstate.edu/instruct/phl302/texts/pascal/pensees-contents.html

Texto escrito em 09/10/2006

A felicidade no trágico

26/12/2008

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Para suportar a moira (o destino, o terrível e o horrendo, em outras palavras, nossa ignorância completa sobre o sentido da vida, aquilo que sentimos quando nos perguntamos “o que estou fazendo aqui?”) há de se representar, seja pelo sublime (trágico), seja pelo ridículo (cômico), e não só no palco. Eu, particularmente, prefiro o ridículo. Somente pelo humor consigo suportar e suportar-me. A capacidade de rir, de rir de si próprio, de não se levar a sério, sem, é claro, deixar de respeitar a condição absurda e muitas vezes desesperadora do outro, e a minha própria, talvez seja a forma mais adequada de navegar por aqui. Dói-me ver amigos a sofrer. Gostaria, contudo, de dizer a todos que no fundamento da tragédia, na utilização sábia da mitologia, na invenção do estético como forma de jogar com a vida, os gregos nos ensinaram muito. Não se trata de idealizar os helenos à moda romântica, mas de perceber que no mundo anterior a Sócrates talvez estivesse um remédio para o sofrer. O outro remédio, o da razão, nos custou caro: chegamos a uma civilização racional e extremamente burra, somos novos bárbaros, munidos de computadores, carros e belas casas, com analfabetos, carroças e barracos à porta. Não encontramos saída em nenhum sistema político. Não nos encontramos. Sejamos mais trágicos.

Texto escrito em 16/9/2006

Escrito à sombra de um obelisco

26/12/2008

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O velho que me olha com olhar de avô, não é, é claro, meu avô. Muito menos meu pai, morador hipotético e emérito desta cidade. Estou à sombra de um ícone grego, escrevendo em português, falando em português, às vezes em fraquíssimo espanhol. Aqui não me importa o que lhes digo (e não lhes importa tampouco o que digo). Tudo bem: mesmo no Brasil muitas vezes me entendem em grego, isto é, não me entendem. El greco soy yo (mas não insiram palhaços pós-modernos em meus quadros), e contudo não falo grego nenhum… Os vínculos se me perderam por aqui, nesta capital de larga província: aos 40, não consigo cantar Buenos Aires como se fosse um juvenil pelotense-árabe a chorar afetadamente o que não é seu, usando palavras que não são suas. Só caminho por largas avenidas, não desço a subterrâneo algum e chamo subterrâneo de metrô. Agora, até as memórias de Dostoiévski me enjoam. Paradoxalmente, se me perguntarem o que sou, de onde sou e o que faço sentado nesta sombra, direi, com linguagem que não é minha (e nem de Bioy Casares): Soy el último hombre de Uqbar! Um patético homem de ficciones! (mas será que me entenderão?). A sombra do obelisco! – que lugar agradável! É aqui que me esqueço de que há pouco andava por una autopista, com a voz portenha de um já velho portenho maluco de brancos bigodes um Garcia demolidor de hoteles  gritando no discman imaginário de meu ouvido afetivo. Esqueço-me também de que no fluxo rápido da rodovia ousara olhar duas ou três vezes para dois ou três motoristas velhos, para ver se por acaso e somente por acaso (“o acaso é o álibi dos imbecis”) num deles não enxergava o tal morador emérito, que dizia gostar tanto da Argentina e que viria para cá, viver. Pois bem, não o achei. E senti-me envergonhado por ter olhado. Levanto-me, pego a Corrientes, compro dois ou três pulôveres de lã crua, mais dois ou três livros, seguro firme a mão de quem me ama e estou pronto para voltar.

Escrito em 14/9/2006

Como (não) dar presentes

26/12/2008

nietzsche

 

Como diria Nietzsche, em Aurora (464), presentear alguém deve ser algo feito da maneira mais anônima possível. Nada mais presunçoso do que presentear com aquele sorriso piegas no rosto. A Natureza, quando nos presenteia com sol ou com uma chuva necessária, não o faz com intenção piedosa ou piegas; fá-lo sem sentido inerente, gratuitamente. São os cristãos, afirma Nietzsche, que dizem ser o sol ou a chuva um presente de Deus. Mas estão errados, erradíssimos. A pieguice cristã, além disso, coloca no presentear uma espécie de querer: aquele querer de afago e de retribuição, a necessidade de sentir-se lambido por um cachorro, o que faz da caridade cristã o mais abominável dos sentimentos. Em suma: presentear é bom, mas há um como presentear a ser observado.

 

 

 Texto escrito em 10/05/2006

Pensando a poesia; a poesia como pensamento (fragmento de uma aula introdutória à Teoria da Literatura)

26/12/2008
Horácio

Horácio

Pensar a literatura de maneira pragmática, isto é, fazendo com que ela cumpra uma determinada função é algo tão antigo quanto Aristóteles, com a idéia de catarse, mas que fica mais bem expresso no século I a.C. em Horácio, o qual pregava que a literatura deveria ser utile/dulce, ou seja, deveria educar e dar prazer. Além disso, na sua Ars poetica, ele também defende a necessidade de que o escritor seja um profissional. Há aí toda uma gama de possibilidades que tem amplos desdobramentos na modernidade e, mais ainda, nesta chamada pós-modernidade, contra a qual me debato. Se todos se ativessem mais ao labor da lima, ao polir da palavra, enfim, ao “ars longa, vita brevis” horaciano, não teríamos a idéia já bem difundida de que qualquer um que escreva palavras rimadas seja poeta. Não são. São no máximo ajuntadores de palavras.  Exemplo: o aluno ingênuo descobre que “computador” rima com “dor” e que “teclado” rima com “complicado” e produz uma maravilha como esta: “É só no meu computador/ às vezes tão complicado/ que encontro a dor/ essa danada que me chega pelo teclado”. Vejam que o jogo de palavras é até razoável, mas não há poesia nenhuma nisso, há apenas técnica. Aliás, poesia rimada é repugnante.  O poeta precisa ser trezentos, o poeta precisa escrever mais nas entrelinhas do que nas linhas. Poesia é criação, não é imitação. “O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia“, diria Drummond. Percebam que o pensar e sentir são apenas os primeiros passos de quem se volta à escrita da poesia. A poesia, que é  intangível, não fosse a forma, vem, é claro, do pensamento e do sentimento, mas quando se põe sob essa mesma forma deve estar acabada e ser autônoma o suficiente para ser maior do que o pensamento e do que o sentimento que a gerou. Em outras palavras, deve elidir o criador. Por isso o poeta não se confunde com o ser empírico cuja carne habita; o poeta é trezentos, já disse eu, citando outro Andrade. Quando ele faz um verso, contudo, não está querendo passar uma lição; não está querendo mostrar algo como se dissesse “viram como se deve agir”, ou “viram como é que se escreve”, ou “viram como esse poema nos alivia”. Esta é uma disfunção da poesia, perpetrada pelos educadores  que só pegam a parcela útil da poesia , pelos ingênuos que confundem poesia com ensino de língua ou de História (os famosos “períodos literários” como muleta ilustradora de um período histórico), pelos poetas menores, pessoas cuja perspectiva é sempre moralizante (em geral por ressentimento, por não terem ingressado no mundo instituído). O poeta maior não ensina, não passa lições. Apenas diz como as coisas de fato são e já diz com o domínio da forma, é claro. E, por isso, ensinar a língua é algo que lhe é intrínseco, mas que não configura seu objetivo. Para pensar no bom poema pense no verbo ser. Por que algo é isto ou aquilo? A ontologia de qualquer objeto (do sujeito inclusive) só se explica pela mais absoluta incerteza, sabem aqueles que não se entregam às arbitrariedades da razão e nem ao juízo sintético a priori kantiano. Ao dizer o que as coisas são e não como são, a poesia ingressa no conceito, no território da filosofia. Mas a filosofia nem sempre foi o que hoje entendemos por filosofia. Daí o interesse de um Nietzsche e de um Heidegger pelo momento anterior ao surgimento da razão, daí a valorização dos filósofos da physis, os chamados pré-socráticos.

Outra questão: O que sobra para o leitor de hoje, aquele que pensa que vale tudo na interpretação do poema? Está certo que o leitor pode enxergar o que bem quiser naquilo que lê, mas isso não quer dizer que o sentido não seja alcançável, que não haja uma possibilidade de acordo. O leitor de hoje se julga um revolucionário. Mas sua interpretação é apenas um sentido possível. Não sabem que a boa interpretação da poesia é uma síntese de vários uns, que devem chegar a o sentido. Poesia é o sentido. Nem toda polissemia que encontramos nas palavras que compõem um poema  é, contudo, necessariamente revolucionária. Às vezes, os poemas não são mais do que simples jogos de palavras cujos sentidos são todos de superfície, como mostrei acima no poeminha sobre o computador. Há poetas que exploram muito bem essa superfície do verso, que não sabem ser profundos, como é o caso de Quintana, que, apesar de tão benquisto no arraial porto-alegrense, é mesmo um pouco simplório. Agora, se pegarmos um Bandeira, a coisa muda de figura. Os sentidos de seus poemas são abertos, polissêmicos, mas há um sentido possível que se impõe mais do que os outros sentidos possíveis naquilo que seus versos dizem.Nele temos o sentido. Esse sentido em geral está associado a uma camada mais profunda do que o simples jogo combinatório das palavras no sintagma e no paradigma. Assim, se o poeta cumpre alguma função, esta função é a de um organizador daquilo que não se deixa organizar pelo discurso racional, de um sujeito que antevê o que só a muito custo vemos, entupidos que estamos pela barbárie da razão. Saber abrir os ouvidos à palavra do poeta e entender aquilo que ele sinteticamente e com toda a incerteza diz como sendo o que de mais próximo há da certeza: esta a tarefa do bom leitor, do sujeito que se deixa transformar pelo que é dito. Há quem se transforme, por outro lado, pelo silêncio. O silêncio também pode ser agradável. Mas quando há silêncio demais não sabemos se há apenas silêncio ou se há alguém por detrás dele, alguém que tenha cérebro, tronco e membros alguém, enfim, que não pretenda/finja ser puro espírito. A palavra divina não vem pelo silêncio. A palavra divina simplesmente não vem. Isso é poesia.

 

Texto escrito em 29/4/2006

Ser artista, hoje

26/12/2008

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 Ser poeta, cineasta ou qualquer coisa relacionada à arte ganhou, hoje, uma conotação repugnante. Estou convencido de que é melhor ser escriturário. Já fui; vou sê-lo; já sou. Todos querem saber o que o artista pensa. E o artista, hoje, está sempre pronto a dizê-lo. Nada mais maçante do que ouvir os comentários do diretor sobre a escolha da tomada da cena tal do filme tal em contraposição a outra tomada, preterida por uma razão qualquer. É necessário explicar a arte, isto é, trazer para fora da própria arte sua “essência” via comentários que a tornem digeríveis por ávidos compradores. Hoje arte se compra. E é só. Os artistas de hoje são, por isso, também os teóricos de sua própria obra. Já que eles detêm os direitos autorais sobre sua mercadoria, nada melhor do que nos expliquem o que ela é. Nossos artistas são, assim, os senhores da ontologia da obra de arte, vejam só! E eu, que pensava saber ainda pensar, me sinto, agora, inútil, pois estou dispensado de fazê-lo. A interpretação da obra já me é servida pronta, por alguns reais a mais.

A empáfia e a prepotência dos nossos artistas-intelectuais, e em especial dos artistas-intelectuais aqui do Pampa, é de doer. Depois da chegada do Partido da estrela ao poder nacional, então, a coisa adquiriu requintes patológicos. De uma hora para outra, empresários dos meios de comunicação de massa e artistas-intelectuais “revolucionários” começaram a falar a mesma língua. Aqueles passaram a achar uma maravilha ser revolucionário, e estes passaram a achar interessante aprender a administrar seus “negócios” artísticos. Antigos críticos dos meios embasbacados de comunicação da não menos babaca Porto Alegre agora se aliam a cúpula empresarial, numa síntese primorosa, numa crença obtusa de que capital e Estado podem sempre reerguer a arte do limbo em que se encontra na nossa civilização. Mas reerguer a arte é diferente de fazê-la render mais, de fazer com que se difunda por se difundir. Aos idiotas revolucionários que se abraçam com alma e tudo a esta mídia daqui, tudo parece normal, porque pensam que o simples fato de popularizar a arte é suficiente para justificar qualquer aliança. Antes, aliavam-se aos empulhadores da “administração popular” – eram pessoas que mudariam o mundo com seus fóruns e orçamentos participativos. Que lindo!; hoje, nem se importam que Fogaças e Rigottos tenham sido mais palatáveis à massa ignara. Pensam: “Estamos levando vantagem de qualquer forma; nossa arte está aparecendo. Nosso líder ainda tem o poder em Brasília. É preciso ser pragmático”. Sempre é claro, sob o crivo da máxima de Tolstói, aquela que diz “fala de tua aldeia, que alcançarás o mundo”, que atende bem a capital e Estado. E dê-lhe contar história lugar-comum sob a perspectiva do gaúcho, como se este fosse de uma estirpe diferente. Como se não fosse um exemplar repetido da raça humana. Acabam incrementando a xenofobia de um povo que não sabe discernir identidade de racismo. É justamente essa aliança que manterá para sempre a arte como mera ilustradora do cotidiano escravizado; é essa mesma aliança que fará com que a arte seja sempre apenas diversão de final de semana.

Já que arte não enche barriga, e em geral nunca encheu mesmo, nossos heróis revolucionários acharam melhor inovar e transmutá-la em churrasco de domingo. Com muita cerveja, é claro, para causar aquele sono boquiaberto, digno de homens boquirrotos, satisfeitos com a vida. Assim como são e sempre foram os artistas, não é?

 

Texto escrito em 05/3/2006

O esporte e seus defensores “radicais”

26/12/2008

tenis

 Um simples par de tênis provocou-me a seguinte reflexão: serve-me por sua utilidade ou serve-me por motivos outros? Para mim, serve por ser útil, por evitar o impacto contra o solo, protegendo as articulações do joelho, etc. No entanto, é óbvio que, para outras pessoas, serve também a outras vontades: por exemplo, a ostentação de uma determinada marca como forma de fazer o poder do dinheiro sobrepor-se ao da utilidade do tênis. Não me importo com isso e nem com outras bobagens; na verdade, até aturo bem todos os chatos que me falam de adrenalina, esportes radicais… São pessoas acometidas de um raciocínio primário a quem sempre perdôo na esperança de que um dia se dêem conta de sua futilidade. O que dizer então dos senhores cuja maior aspiração é andar em uma trilha off-road não de tênis, mas em potentíssimos carros com pneus de 2 milhões de polegadas e aros de 8 metros de diâmetro? Estão acometidos de tamanha imbecilidade que não se dão conta de que – apesar de dizerem que não há nada melhor do que o contato com a natureza – não apreciam a natureza ou a tal trilha em si, mas sim a vontade de prevalecer sobre a natureza, isto é, de fazer com que a máquina se sobreponha ao natural. Em outras palavras, levam para suas trilhas radicais no final de semana todo o poder babaca e prepotente com o qual convivem o ano inteiro durante a semana em seus escritórios na cidade. Por que será que esses asnos do esporte desvirtuado não são capazes de calar-se e apenas observar o que lhes rodeia?

 Texto escrito em 13/02/2006

Tchekhov – Uma história enfadonha

23/12/2008

chekhov

Em tempos de globalização e pensamento único, nada como voltar a Tchekhov e seu magistral conto “Uma história enfadonha”. Lá estão os motivos que fazem com que o intelectual às vezes canse da vida em casa, da vida em sociedade e, em especial, da vida na Universidade. Não se trata de misantropia, mas de cansaço. Olha-se para o mundo (ou para a sociedade) pela lente do jornal e todos os dias lá estão os mesmos idiotas com o poder na mão, a mesma ideologia que tudo transforma em mercadoria, a pregação de que tudo se resolverá se o Mercado for mais forte, etc. Olha-se para a Universidade e lá estão os arautos do capital, vendendo diplomas sem escrúpulo.  Acho que tenho sorte por olhar para o lado quando acordo e não ver a mulher gorda e cheia de lamúrias do conto do escritor russo. A vida é bela.

Texto escrito em 21/12/2005

Narrativas e dramas

23/12/2008
D. Secco - Retrato da artista quando jovem cachorrinha

D. Secco - Retrato da artista quando jovem cachorrinha

Mesmo recorrendo à narrativa a ao drama reiteradamente por motivos profissionais e, às vezes, até por prazer, não consigo ver um aspecto positivo no fato de que no Brasil as novelas (que são, na base, narrativa + drama) façam tamanho sucesso. É óbvio que o interesse de um programa como a novela é o de distrair a senhora que fica o dia inteiro lavando, cozinhando e  passando (e também o senhor que chega cansado do trabalho), mas é também o de destruir a massa cinzenta de seus filhos (que estão na sala, de carona), instituindo em geral o padrão classe média alta (e oca) como modelo a ser seguido. Pode ser que a situação de fundo seja outra, isto é, pode ser que a mãe trabalhe fora e o pai fique em casa, mas o fato é que o quadro se repete,  a julgar pelo índice de audiência das novelas, que só faz aumentar. Como se isso não bastasse, há também hoje uma novela para adolescentes – todos bonitos, graciosos, dentes alinhados e cabelos preparados para parecerem rebeldes -, meninos e meninas prontos para serem os hollow men do futuro. Agora, me espanta ver que essa “nova geração”  que começa a se formar (nova apenas no sentido cronológico, pois a ignorância é algo muito antigo) tenha de sofrer a injunção de “formadores de opinião” que não mais se contentam com o mundinho banal em que estavam, apelando, sem nenhum pudor, para a necessidade de que sejam todos cultos, de que conheçam imediatamente filosofia, de que estejam prontos para falar com uma propriedade de superfície sobre assuntos antes relegados a velhos acadêmicos, todos muito velhos, empoeirados e pobres. Hoje é provável que você diga “Hegel” e a moça da Globo explique tudo sobre o autor alemão em uma parcelinha de um bloco qualquer do Fantástico.

Texto escrito em 25/10/2005

Poema para minha avó à beira do Alzheimer

23/12/2008
 
Por mais que escreva páginas e páginas de artigos e textos
Por mais que pense ter encontrado o caminho no final da curva
Por mais que sinta o corpo satisfeito
Por mais que sinta o prazer da música
Por mais que esteja certo de que estou certo
O processo é sempre menos, me ensinaste.
 
A vida no final do túnel, afunilada
A consciência perdida, o olhar perdido, os pés em movimento
Teu sorriso breve, miúdo; sorriso que já foi grande, graúdo!
A careta e o espasmo, a careta sobre a careta e o espasmo sobre o espasmo
Meu riso incontido, minha lágrima incontida
O abraço e o beijo na mão, como se fosse bênção.
Escrito em 10/10/2005

De volta a Turner

23/12/2008
Hannibal and his army crossing the Alps)

Turner (Snow storm: Hannibal and his army crossing the Alps)

Diante da mais absoluta ignorância com a qual freqüentemente me deparo, diante dos olhares bovinos que me encaram quando falo de coisas como um quadro que julgo belo, diante da mais estúpida animalidade bárbara da colônia imersa no mais raso domínio sistêmico e técnico, só me resta Turner. E eis que lhes mostro, irônico, o quadro acima. Mas não obtenho resposta nenhuma. São bárbaros, são bois de carga que nada vêem. Metalinguagem, nem sabem o que é. Pergunto: De onde tiram suas emoções, então? Obtenho respostas singelas e quase todas burras: “De um cartão de aniversário; de um carro de som que toca bem alto só para mim; de um poema lido no Dia das mães”. Desabo… Prometo a todos esses pálidos romanos de hoje minhas vísceras ao final do processo. Prometo a todos a imolação. Prometo-lhes meu desespero, enfim. Levem meu fígado, canibais insensatos. Mas não me rendo: sou Aníbal!

Texto escrito em 28/5/2005